[dropcap style=”style3″]A[/dropcap]proveitei dois dias em Salvador e achei que já era o suficiente. O albergue não estava tão animado quantos os anteriores, não conheci ninguém muito interessante e decidi fechar minha hospedagem ao meio-dia e partir para a rodoviária. A ideia era pegar o ônibus das 16:30 e chegar em Lençóis (base para a Chapada Diamantina) lá pelas 22:30, já que o tempo de viagem costuma ser de 6h.

Mas já havia um tempo que não passava nenhum perrengue. Tava na hora de acontecer um outro. Fui ao balcão da “Real Expresso” e quando estava chegando a minha vez, veio aquela frase adorável: “Acabei de vender a última passagem para Lençóis nesse horário das 16:30”. O próximo ônibus, só às 23:30!!! Isso porque eram 15:00 quando cheguei na rodoviária. Tive de comprar essa outra passagem, mas o que fazer até às 23:30? Fiquei pelo menos uma hora sentado nas cadeiras do Terminal, desanimado. Até que as ideias foram surgindo.

Lembrei que havia um shopping do outro lado da rua, o Iguatemi. Andando pela rodoviária achei um guarda-volume. Pronto! Larguei minha mochila lá, atravessei a passarela e parti para o shopping. Aí, apelei para a velha tática da época de faculdade/trabalho: o cinema. Comprei um bilhete para o filme das 18:30 (Sete Vidas, com Will Smith) e outro para 20:30 (Surpresas do Amor, com Reese Witherspoon). Emendei uma sessão na outra, pulei de uma sala para a outra e nessa maratona cinematográfica consegui enrolar o tempo.

 

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Engraçado que eram 12 salas de cinema, vários balcões para comprar o ingresso, mas todos estavam lotados. Uma multidão que nunca tinha visto antes em cinemas. Tudo bem que era dia promocional (quarta-feira), mas mesmo assim. Pelo visto o soteropolitano gosta mesmo de cinema.

Dois filmes bons, a tarde e a noite passaram tranquilamente. Voltei para a rodoviária, peguei minha mochila e entrei finalmente no ônibus das 23:30. Tinha conseguido apenas a poltrona 22, no corredor, mas fiquei esperançoso quando não vi ninguém sentado na 21, janela, minutos antes do ônibus sair. Praticamente todos os lugares lotados, só o do meu lado vago. Pensei que havia me dado bem, alguém perdeu a hora, ia viajar com mais espaço. De repente, no último minuto, vejo entrar uma figura exótica pela porta do ônibus. Um hippie que estava bem sujo, fedorento e completamente bêbado.

Adivinha onde ele ia sentar? Quem chutou a poltrona 21, acertou! A criatura carregava uma espécie de bolsa de pano (ou o que sobrou dela) com pelo menos umas três garrafas de cachaça. Já sentou do meu lado com muita delicadeza, com aquele equilíbrio típico de pinguço e colocou o mulambo com as garrafas no compartimento bem acima de onde eu estava. Além daquele troço ficar balançando a viagem toda e fazendo barulho de vidro batendo em vidro, o espaçoso apagou do meu lado e começou a cair por cima mim. Ora era a cabeça que pendia para a direita, ora era o joelho. Resumindo: passei a viagem inteira torcendo para as garrafas não caírem na minha cabeça e chutando o hippie bêbado para longe de mim. E chutando mesmo! O cara encostava, eu bicava a perna dele e ele voltava para o lado dele sem acordar. Parecia um boneco.

Nem preciso dizer que cheguei em Lençóis às 5:30 da manhã sem ter dormido direito, com dores no corpo e vontade de espancar o hippie inconveniente. Encontrei o caminho do albergue e apaguei direto na cama. Enfim, cheguei na Chapada Diamantina.


Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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