[dropcap style=”style3″]A[/dropcap]cordei bem mais disposto, com vontade de encarar as opções principais de passeio aqui da Praia do Forte. O Papa Gente é uma área específica da praia que forma piscinas naturais durante a maré baixa. No próprio albergue há um aparelho que indica como está a maré. Vi que o horário era bom, reforcei o café e dei uma boa caminhada até o local onde fica o Papa Gente.

Pelo caminho é possível ver e conhecer a igrejinha local e visualizar o Farol. O tal Papa Gente é bem concorrido pelos banhistas e varia em termos de profundidade. Em uma das “piscinas” principais nem era possível ver o fundo. Dei uma nadada rápida, andei quase até o fim da orla e voltei para o almoço, um camarão frito sensacional.

 

Depois do almoço fui conhecer o Projeto Tamar, especializado no auxílio à vida marinha, principalmente às tartarugas. Pelo que entendi é uma espécie de ação conjunta patrocinada pela Marinha e pela Petrobrás. Há diversos tipos de tartarugas, algumas até gigantes, espalhadas pelos tanques, além de tubarões e peixes. Bem interessante.

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Mais no meio da tarde, veio a ideia de conhecer o Castelo Garcia D’Ávila. Mais um perrengue para complementar a viagem. Me informei na recepção do albergue como chegava lá. Há um mapa no balcão com detalhes da Praia do Forte e atrativos. Claro que não foi feito por nenhum geógrafo ou cartógrafo, porque as proporções são totalmente surreais. Passei por um ponto de táxi e perguntei se era perto. O cara me disse que a distância era de uns 6 quilômetros e que era impossível ir andando. Falou que era melhor ir de táxi. O primeiro motorista queria me levar por R$ 50, o segundo falou que faria por R$ 20. Descartei os dois, porque “obviamente” isso era papo de taxista. Ainda mais quando ele falou que era impossível ir andando, aí me provocou. Tava na cara que não me conhecia.

Resolvi ir a pé mesmo. No meio do caminho, perguntei a um outro cara de um hotel e ele disse que eram uns 4 km. Sabia que os taxistas tinham exagerado. Pensei logo, deve ser até menos do que isso. Fui andando, fui andando, fui andando e nada de ver sinais do bendito Castelo. Atravessei uma estrada asfaltada, outra de barro e depois de 1h de caminhada (meia hora de ladeira) cheguei no local. Um sol de rachar a cabeça e nem sinal de vida humana ao redor. Só mato, macacos, cigarras e pássaros.

O Castelo é bonito, tem um estilo medieval, e é uma viagem interessante na história baiana e brasileira. Foi construído entre 1551 e 1624. Foi a primeira grande edificação portuguesa no Brasil e o único castelo feudal das Américas. Rendeu boas fotos. Já ia me esquecendo, no meio do caminho, pensei em desistir por causa do calor absurdo. Mas vi um daqueles taxistas passando na direção contrária, olhando para mim e balançando a cabeça como quem diz: “maluco teimoso, vai desistir logo, logo”. Não desisti, mas a volta foi sinistra. Estava escurecendo, sem muita iluminação e ainda me deu maior dor de barriga no meio do trajeto, daquelas sinistras mesmo. Acho que nunca uma caminhada demorou tanto na minha vida.

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Com o pé estourado e corpo moído das caminhadas do dia, tomei meu banho, relaxei e saí à noite para comer. Arrumei um local em uma rua alternativa, em que uma senhora fazia carrocho-quente por R$ 1,50. Em fim de mochilão, é hora de economizar. Não poderia ter tido melhor pedida. Dois cachorros com lata de Pepsi por R$ 5,00. Nem no Rio tinha achado um lanche tão em conta.

Estendi o passeio até o fim da vila local, que dá no início da praia. Reconheci o som de um violão e uma música evangélica que tem sido muito cantado nas rádios: “Entra na minha casa”, do Regis Danese). Fui me aproximando e havia uma roda de jovens sentados em uma espécie de cabana aberta, muito próxima da areia da praia. Dois jovens tocando violão, outro em uma bateria acústica improvisada e um cara mais velho comandando o culto. Me aproximei e fiquei escutando. Era um culto para surfistas. Tudo em um estilo bem leve, tranquilo e alegre. Cerca de 30 garotos estavam participando, cantando e ouvindo as mensagens. O cara que estava à frente percebeu que eu estava de longe ouvindo e me convidou para sentar no local também. O pastor convidado usava metáforas surfistas para falar da bíblia. Foi uma noite agradável. Terminei bem meu dia.


Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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