[dropcap style=”style3″]O[/dropcap]ficialmente seria o meu primeiro dia de turismo em São Paulo. Já tinha vindo em outras ocasiões, mas sempre em visitas de um dia e com objetivos bem específicos, como eventos, palestras e até um show. A verdade é que nunca fui muito fã da cidade, muito por causa do estilo de vida, pela intensa paisagem urbana e pela clássica rivalidade Rio-São Paulo. Sim, aquelas velhas provocações entre cariocas e paulistas sobre a importância e beleza de suas cidades que acabam nos contagiando e nos fazendo tomar partido. Depois de muita insistência da minha amiga paulista Vanessa, resolvi encarar esse desafio de ver a cidade com outros olhos e esquecer um pouco os estereótipos. Uma das grandes qualidades de um viajante mochileiro é o de ter uma visão mais consistente e aprofundada das culturas que vivencia e das pessoas que conhece. Generalizações não podem fazer parte do nosso vocabulário. Devemos procurar entender melhor as peculiaridades de cada canto. Já havia vencido o preconceito contra americanos, britânicos e até argentinos em minhas viagens. Será que conseguiria também superar as barreiras contra os paulistas?

A lista de pontos turísticos no centro de São Paulo é quase infinita. Na hora de planejar um roteiro por esta área, não é tão simples traçar prioridades. Por sorte, nossa anfitriã nos deu boas indicações e contamos também com a ajuda guiada de um mochileiro louco que mora na cidade. Ele tem como grandes feitos no currículo ter viajado por boa parte do Brasil apenas de carona e ter ido para Fernando de Noronha de graça, embarcando clandestinamente em um barco até a ilha e dormido em casa de pescadores. Por essas razões, minha amiga Lizya e eu ficamos mais tranquilos em circular pela maior metrópole brasileira.

Nosso ponto de partida foi a Catedral da Sé. A estação de metrô fica logo ao lado e é, por sinal, a mais movimentada de toda a capital. O lugar não poderia ter sido mais significativo, já que o marco zero de São Paulo fica logo em frente à catedral. A partir deste ponto, simbolizado por um pequeno monumento hexagonal, se medem todas as distâncias e numerações das vias públicas locais. Tiramos nossas fotos ali, admiramos a arquitetura gótica da igreja e o belo corredor de árvores na praça. A partir desse ponto, nossa ideia era fazer todos os passeios a pé. Seguimos caminhando, então, até o Bairro da Liberdade, reduto de imigrantes japoneses. Toda a decoração urbana segue o estilo oriental: postes, luminárias, letreiros, prédios, passarelas. Um lugar bem interessante e diferente. Há muitas opções de comércio de roupas, alimentos, artesanatos e outros artigos típicos.

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Seguimos caminhando pelo centro. Paramos por alguns minutos no Pateo do Collegio, um espaço onde nasceu São Paulo. Lá no século XVI, foi erguida a primeira construção a cidade: um colégio para catequizar os índios. Hoje em dia abriga um museu, uma igreja e uma biblioteca. A próxima parada foi a Praça Antônio Prado, passando pelo prédio da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), a maior da América Latina. Mais alguns passos a frente, paramos no Largo de São Bento, onde fica o Mosteiro de mesmo nome. O prédio é bem bonito. Lá dentro funciona, além da igreja, um colégio, uma faculdade, um teatro e uma lojinha com doces, pães, biscoitos e outras opções do gênero que são preparadas pelos monges.

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Percorremos a famosa rua 25 de Março, maior aglomeração comercial da cidade, com lojas e vendedores ambulantes para todos os lados. Movimentação intensa nas ruas, pessoas passando com as mãos cheias de sacolas de compras a toda hora, camelôs anunciando aos gritos os seus produtos de qualidade duvidosa e por aí vai. Um centrão típico e confuso, paraíso para os que gostam de gastar dinheiro. Só achei que haveria uma maior variedade de produtos. Predominam artigos relacionados a roupas e acessórios. A parada seguinte foi no Mercado Municipal, que já posso admitir que é o melhor que conheci até agora do Brasil. Em termos de tamanho, estrutura, conservação do lugar e variedade de lojas e produtos está a frente dos demais. Lugar bem movimentado e ótima opção para fazer um lanche. Os mais famosos por aqui são o sanduíche de mortadela e o pastel de bacalhau.

Um dos lugares mais curiosos da cidade foi o que conhecemos logo em seguida: a Estação da Luz. Trata-se de um estação ferroviária estratégica para integrar outras linhas, que conta com o Museu da Língua Portuguesa no seu interior. O lugar por dentro é bastante movimentado, com chegada de passageiros e trens a cada instante. Mas o que mais me chamou a atenção foi mesmo a parte externa. A fachada do prédio é linda, de todos os prédios e estruturas de São Paulo foi a que mais gostei e adotei como foto de abertura deste post. Ao mesmo tempo, fica localizada em um dos pontos mais feios da cidade. Foi o lugar que nos sentimos mais inseguros, pela presença grande de mendigos e pessoas mal encaradas. Um doido até nos abordou de forma estranha, pedindo dinheiro, mas nos desvencilhamos dele. A poucos metros dali, está a famosa “Cracolândia”: uma rua inteira com várias pessoas viciadas em drogas, principalmente no “crack”. Trata-se de um problema social bem sério. E sejamos honestos, a visão do lugar é bem sinistra.

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Andamos um bom pedaço para chegar na Avenida Paulista, o principal centro financeiro da capital e que tem grande importância também por concentrar importantes pólos de cultura e entretenimento. No geral é bem limpa e moderna (pelo menos era quando eu estive lá). O ponto mais famoso é o Museu de Arte de São Paulo (MASP), aquele vermelho e preto que costuma ser um dos cartões postais da cidade. Outro bom ponto de parada é a livraria Cultura, com ótimas opções para amantes de literatura.SAM_3786

Antes que o dia chegasse ao fim, ainda tivemos tempo de visitar outros dois pontos interessantes. A primeira parada foi no prédio Itália, o segundo maior da cidade com 168 metros, perdendo apenas para o Mirante do Vale, no Anhangabaú, que tem 170 metros de altura. A dica aqui é aparecer entre 15h e 16h, de segunda a sexta, para poder subir até o terraço de forma gratuita. De lá se tem uma vista privilegiada em 360 graus de toda a cidade. Caso opte por apreciar a vista lá de cima de segunda a domingo das 12h às 24h (exceto o intervalo já citado) terá de pagar R$ 15. O lugar é bem legal, mas obviamente não vale isso que é cobrado. Então aproveite o horário de visitação gratuita. Lá de cima dá pra ter uma boa vista também do edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, que tem o formato de um “S”. A fachada já é antiga e bem largadinha, mas o legal é observar essas curvas diferentes do prédio.

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Por fim, antes de embarcar novamente na Estação da Sé em direção a nossa base em São Bernardo, passeamos pela Galeria do Rock, mais por curiosidade mesmo, porque ninguém no grupo era roqueiro. Ela fica na rua 24 de maio, em frente ao largo do Paiçandú e à igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Para o universo roqueiro há de tudo. Camisetas temáticas, CD’s alternativos, discos de vinil clássicos e acessórios variados para entrar no clima. Depois da maratona de passeios, voltamos para nossa casa temporária. Fechamos a noite em um rodízio de pizza, para comemorar o aniversário do pai da nossa anfitriã Vanessa e encontramos com o próximo amigo mochileiro que faria parte desse roteiro por São Paulo: o Rafael Ratto. Bem alimentados, dormimos cedo para nos preparar para o dia seguinte. Próximas paradas: Santos e Guarujá.