[dropcap style=”style3″]N[/dropcap]a rodoviária do Rio de Janeiro resolvi pegar o segundo ônibus da sexta-feira, que sairia às 6:30. Acordei com uma preguiça terrível, mas com uma motivação totalmente diferente dos dias normais de trabalho. Aliás, a Novo Rio está muito bonita internamente, com ambiente mais moderno. Só falta darem um jeito na entrada feia e nos arredores mais sinistros ainda (eu sei, é pedir demais). Passei a maior parte da viagem dormindo e ouvindo música, já que a paisagem vista pela janela não é das mais inspiradoras. Transcorridas 3 horas, logo após Cabo Frio, um portal estilizado anuncia a chegada em Arraial do Cabo

Não existe propriamente uma rodoviária, está mais para um ponto de ônibus mesmo. Até porque a 1001 não tem concorrentes e o transporte da região é monopolizado. Logo que cheguei, procurei por um banheiro. Havia um muito fajuto neste “mini terminal” que era pago. Não sei se a mulher que fica com a chave dele gostou de mim ou simplesmente estava distraída, mas o fato é que eu usei o local, devolvi as chaves e não desembolsei nenhum centavo. Peso na consciência? Que nada, absurdo é essa mania em rodoviárias de cobrar por algo tão básico e necessário. Arraial tem dimensões pequenas e dá para fazer tudo a pé. Fui caminhando até a praia dos Anjos e conhecendo o centro. A simpática Igreja Nossa Senhora dos Remédios é uma das construções que merecem foto.

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Muitos não gostam da Praia dos Anjos por ela ter uma imagem mais “poluída” que as demais devido aos barcos que ficam ancorados nela. Mas eu gostei e já fiquei impressionado com a cor da água, principalmente no canto direito da praia, onde não há embarcações. Depois de deixar minhas coisas no hostel, foi o lugar do primeiro mergulho. As praias de difícil acesso são alcançadas através dos passeios de barco que saem da Praia dos Anjos. Não é difícil achar quem os faça: há vários “propagandistas” com coletes amarelos gritando no calçadão, oferecendo transporte. O estilo para conquistar os turistas é bem parecido com o dos nossos trocadores de kombi aqui na Ilha do Governador: uma delicadeza…

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O hostel estava bem vazio. Apenas um tagarela italiano no quarto coletivo masculino. Um baixinho chamado Eliseo, com uns 30 anos de idade e que se comunicava com as pessoas em espanhol. Estava há três meses viajando pelo Brasil e Argentina e ainda iria conhecer a Bahia antes de voltar para sua terra natal. Queria entender como esses europeus conseguem tanto tempo de férias. E porque uma pessoa que viaja a um país não se dá ao trabalho de ao menos aprender frases básicas do idioma local. Nem sequer um “obrigado”, “por favor”, “com licença”, “bom dia”… O cara não falava nada de português. Enfim, chega de criticá-lo. Ele se mostraria útil mais para a frente.

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O pessoal do hostel ajudou muito com um mapa e dicas da região. Depois da praia dos Anjos, peguei a pequena trilha que leva até a praia do Forno. Apesar do terreno ser íngreme, o percurso não leva nem 10 minutos. O caminho tem ótima vista para a cidade, para a marina dos Anjos e para a própria praia do Forno, além de contar com a surpresa constante de lagartos grandes que saem do mato e param na sua frente para posar para a foto. A praia do Forno é algo sensacional. Lindo demais. A cor das águas impressiona: cristalinas e transparentes olhando de muito perto, com vários tons de azul e verde olhando de mais longe. A areia é bem branca e frequentada por poucas pessoas fora da alta temporada. Nota 10! Um dos pontos altos de Arraial. Curti durante bastante tempo, isolado no canto esquerdo da praia, aproveitando o silêncio e o solzão.

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Voltei para o albergue e tive o primeiro convite pertinente: um almoço preparado pelo italiano. Um risoto e um peixe com batatas. Alimentou bem nós dois, seis funcionários e um namorado de uma das funcionárias. Esperava mais dos tão proclamados dotes culinários do italiano, mas de graça estava bom demais.

Foi aí que veio o segundo convite: Adriano, o gerente do hostel, me chamou para pescar com ele, o Eliseo e o tal namorado da menina do hostel (que descobri se chamar Éverton) no morro que fica na praia do Pontal. Transporte e pescaria de graça? Obviamente, eu aceitei ir mais uma vez na aba. Aproveitamos primeiro o pôr-do-sol lá de cima do morro, que foi muito bonito, e depois iniciamos a pescaria. Consegui ao menos pegar um peixe, já que ninguém teve muito sucesso. Descemos o morro servindo de banquete sanguíneo para os mosquitos.

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À noite, o Éverton resolveu nos chamar para Cabo Frio, onde, segundo ele, havia um bom local para comer e ouvir música. Que furada! Um pagode bizarro, com gente mais velha e pouco interessante. Enquanto eu curtia o meu refrigerante, um pinguço flamenguista (redundância) me perturbava o tempo todo com as mesmas piadas sem graça sobre futebol. Eu comecei a rir, na verdade, com as tentativas do Éverton de falar inglês com o italiano. Já completamente doidão, ele tentou expressar o seu sentimento pela namorada: “My husband is yours”. Na verdade o que ele queria era ter falado algo como “My girlfriend is my love”. Primeiro o italiano achou que ele fosse gay, depois quando ele mudou de “husband” para “wife” na frase, o italiano pensou que ele fosse um praticante de “swing”.Sorte que eu arranho no espanhol e consegui explicar, em meio à gargalhadas não disfarçadas, o que o Éverton queria realmente falar. Depois da sessão terror, fomos para a parte mais jovem e bonita de Cabo Frio, circulando pela calçada dos restaurantes, bares e lanchonetes. Uma visão bem mais animadora que salvou a noite.


Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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