[dropcap style=”style3″]D[/dropcap]urante o percurso de ônibus de Porto Alegre até o Chuí, consegui dormir bem, apesar da ansiedade. Há um bom tempo que eu queria conhecer o Uruguai e essa também seria a primeira vez que sairia do país sozinho. Confesso que fiquei um pouco receoso, não sabia se teria problemas na fronteira, se conseguiria me virar com o portunhol nas cidades, essas coisas. A expectativa era bem grande. Por volta das 5:30, acordei com o movimento de pessoas se levantando e descendo do ônibus. Praticamente todo mundo havia ido embora e eu tratei de pegar a minha mochila e descer logo também. Pelos meus cálculos, estávamos adiantados em uma hora. Decidi ficar na rodoviária esperando o sol aparecer e o comércio abrir para tomar um café.

Pois bem. Depois de escovar os dentes e pentear o cabelo no banheiro, resolvi me informar como eu poderia chegar na Fortaleza de Santa Teresa partindo dali. Muito simpática, a atendente me disse que desconhecia o caminho, mas que eu talvez tivesse mais opções se pegasse um ônibus até o Chuí. “Opa! Como assim até o Chuí? Nós não estamos na cidade?”, perguntei meio lerdo ainda, achando que a mulher tinha se confundido. “Não, aqui é Santa Vitória. Você não sabia?”, e riu do carioca fazendo papel de burro. A verdade é que saltei antes do que devia do ônibus e tive que pegar outro para o Chuí. Sorte que era relativamente barato, uns 5 reais no máximo, e o trajeto levava pouco tempo. Mas foi um ótimo susto para despertar e aprender a lição: sempre perguntar ao motorista, por mais óbvio que a situação possa parecer, se aquele lugar que você está descendo é realmente o certo. Enfim, na rodoviária do Chuí, peguei as informações de transporte que queria e a indicação das empresas que faziam os trajetos: Rutas del Sol e COT. Andei pela cidade, que estava acordando aos poucos, e procurei por um lugar para tomar café. Encontrei um trailer de um uruguaio, que falava português muito bem e que já deu indícios da simpatia que seria um aspecto marcante das minhas relações com os uruguaios. Tirei algumas fotos da cidade, que não tem nada para fazer além das compras nos free shops. Mas não deixa de ser uma experiência interessante estar na última cidade do Brasil na parte sul. Sempre que as pessoas querem dizer que conhecem bem o país, falam que o percorreram do Oiapoque ao Chuí.

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A parte principal da cidade é a avenida que separa o Brasil do Uruguai. De um lado ela leva o nome do nosso país, do outro, o dos nossos vizinhos. É relativamente pequena e tranquila. Pode ser percorrida a pé em pouco tempo. Nela ficam as lojas de free shop, ou seja, produtos que são comercializados legalmente sem pagamento de impostos, o que barateia os valores. Bebidas são o que há de mais barato. Perfumes são ótimas opções de compra. Roupas e eletrônicos não são tão baratos assim. Bom saber que algumas lojas abrem às 9h, mas muitas só a partir das 10h. Se o viajante vier de ônibus, terá de se preparar para passar algum tempo perambulando ou descansando em um canto até o comércio abrir. Para os que optaram pelo carro, é só calcular o tempo certinho para não chegar tão cedo. Quem quiser fazer compras e voltar para Porto Alegre é muito tranquilo. As cidades Chuí (brasileira) e Chuy (uruguaia) são praticamente uma só. A necessidade de se registrar no posto alfandegário é apenas para os que vão continuar viajando por dentro do território uruguaio (o que era o meu caso).
 
Optei por investir apenas em perfumes, que são uma certa fraqueza minha. Comprei dois para mim por 90 dólares (Carolina Herrera e Lacoste), e outros três para uma amiga. Levei um susto na hora de passar o cartão, pois ele estava sendo recusado. O que também serve de dica: leve sempre dois cartões internacionais de crédito de bandeiras diferentes se for possível. Normalmente, Visa e Mastercard, os mais aceitos por aí. Por sorte, o outro cartão passou tranquilamente. Fui ver mais para frente que o problema era da máquina, pois o primeiro voltou a funcionar em outros lugares. A atendente da loja foi extremamente atenciosa e me ajudou a escolher os perfumes de acordo com características que eu passava para ela. Puxei assunto e descobri que era uruguaia, apesar do português perfeito e da fisionomia de brasileira. Era filha de uruguaio com uma brasileira. Acostume-se com essa característica da fronteira: a dificuldade de diferenciar quem é de qual país.
 
Outra coisa muito importante quando se está fazendo um mochilão e as passagens terrestres não foram compradas com antecedência: assim que chegar em cada lugar, compre logo as passagens para o destino seguinte. Tem que ser a primeira preocupação, para você descobrir os horários de saída, controlar melhor o dinheiro que vai gastar naquele dia e organizar seus passeios até a hora do ônibus. Tudo isso pode evitar imprevistos. Fiz isso, optei pela COT, que tinha opções mais em conta e aceitava “tarjeta” (cartão). Comprei o trecho até a Fortaleza de Santa Tereza e de lá até Punta del Este. O vendedor era meio mala e enrolado. Me explicou que a passagem da Fortaleza até Punta era “aberta”, o que significava que eu não ficaria preso a um determinado horário de embarque. Quando eu resolvesse sair de lá teria que ligar para ele, confirmar o horário do próximo ônibus e reservar um assento. Isso ia dar um rolo…
Embarquei às 11:30 no ônibus do Chuy para a Fortaleza de Santa Tereza. Trajeto curto de 30 minutos. Importante: falar com o motorista e/ou cobrador que você precisa descer na alfândega para registrar sua entrada no país. Se não fizer isso, corre o risco deles passarem direto pelo local e você ter problemas quando estiver saindo do Uruguai. Quando desembarquei no ponto da Fortaleza de Santa Tereza, percebi que as pessoas estavam me olhando um pouco intrigadas. O ponto era no meio da estrada, só com mato em volta. Deviam ter me achado doido, indo para aquele fim de mundo. Mais desconfiadas ainda estavam as vacas e cavalos no portão de entrada e ao longo da estrada até a fortaleza. Durante de umas três horas, seriam as únicas criaturas vivas que eu veria no meu passeio.
 
Vale aqui falar de uma pequena diferença que pode confundir os turistas. Já que as informações sobre o local são escassas na internet. Existe uma entrada para a fortaleza e outra para o Parque de Santa Tereza. A fortaleza está inserida no parque, mas a entrada para os demais atrativos dele fica há exatos 4 quilômetros dali. Existe uma entrada só para a fortaleza e outra bem mais à frente para todos os demais atrativos do parque. Ir de carro ou chorar desconto em um táxi, de repente, são as melhores opções para conhecer a fortaleza e depois pular para a entrada oficial do parque. Não existem horários regulares de ônibus fazendo essa ligação.
O inteligente aqui andou uns 20 minutos do pórtico até a fortaleza, carregando uma mochila de 10 quilos nas costas e uma sacola de perfumes. Tudo isso sob um sol escaldante. O tão temido frio uruguaio não se fez presente como esperado. Não havia uma alma humana nos arredores. Fui batendo as fotos, até chegar em frente ao portão de acesso à fortaleza. Que pela foto inicial deste post, percebe-se que estava fechada. Sim, ela só abre suas portas de quinta à domingo e aos feriados, das 10h às 17h. E eu resolvi visitá-la em uma terça-feira. Como eu adoro quando isso acontece. Fiquei ali sem saber o que fazer. O relógio marcava 12:30 e o próximo ônibus para Punta del Este só passaria por ali às 17:00!
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Ao redor não havia nada, apenas mato, vacas, cavalos e mosquitos. Em frente, havia uma casa e fui bater lá para ver se tinha alguém. Estava abandonada, toda suja e fedorenta. Mas era a única sombra disponível naquele lugar. Deixei minhas coisas na varanda, comi o que sobrou de um chocolate e finalizei as últimas gotas de água disponíveis. E a vontade de ir ao banheiro resolveu aparecer. Percebi que a porta dos fundos da casa estava aberta e resolvi procurar um banheiro. Digamos que sinais visíveis davam conta de sua utilização nos dias anteriores (urghh!). Confesso que fiquei com um certo medo de entrar na casa e quando estava já lá dentro também. Não conseguia deixar de pensar em uma das cenas do Halloween H20, quando o assassino mascarado entra em um banheiro de beira de estrada e uma mãe fica em pânico para que ele não perceba a sua presença dela e a da filha. Bom, o máximo que me esperava fora da casa era uma vaca mal encarada.
 
Dei uma volta inteira na fortaleza, escapando das “minas explosivas” deixadas pelos animais e parei em um monumento que oferecia uma sombra. A ideia era gastar o máximo de tempo possível até às 17h. Liguei o celular no máximo e fiquei meditando, ouvindo música e depois fiquei cantando alto, acompanhando a música. Azar o das vacas se não gostaram da minha afinação. Quando o relógio marcou 2:00, eu vi que não dava mais para ficar ali. Resolvi arriscar e andar os 4 quilômetros no meio da estrada até a entrada do Parque de Santa Tereza, que deveria ter algum humano. O peso da mochila e o sol fizeram o caminho aumentar em uns 20 quilômetros. O pé estava esgotado e minha cabeça pirando, porque não havia o menor sinal de vida em volta. A roubada acabou uma hora depois. A entrada do parque era como um oásis no deserto. Entrei esbaforido e perguntei ao guarda onde poderia tomar água e comer algo. Ele disse que bastava subir o caminho do parque mais um pouco e acharia opções. Por curiosidade, perguntei qual era a distância: “1km”, ele respondeu. Arregalei os olhos com tanto desespero, que ele percebeu e fez uma cara de quem estava se desculpando. Ele me indicou que numa cabana abandonada ali do lado da guarita eu acharia algum galão de água. Sai correndo e, de fato, encontrei vários galões. Todos sujos, com a água demonstrando estar em iguais condições. Bebi sem pensar muito e torcendo para não dar nenhum revertério depois. Vi que um caminhão velho, caindo aos pedaços estava entrando no parque e corri atrás para pedir carona. O veículo estava mais sujo e fedorento do que o banheiro na casa abandona lá na fortaleza.
 
Cheguei no tal restaurante e só tinha como opções uns salgados e doces velhos. Optei por um de doce de leite, especialidade no Uruguai. A dona do lugar me tratou com muita atenção e me perguntava a todo momento se estava gostando. Acontece que o negócio estava enjoado e doce demais e eu não conseguia mais dar nenhuma mordida nele. Por sorte, a filha dela apareceu, ela saiu alguns minutos do balcão e foi minha deixa para perguntar pelo banheiro. Fiz o enterro simbólico do doce por lá mesmo e me mandei. Engraçado como nessas situações a gente fica constrangido de dizer que não gostou, ainda mais quando a pessoa se preocupa tanto em te agradar.
 
Liguei para a empresa COT para avisar ao maluco que me vendeu as passagens que sairia no próximo ônibus para Punta e que ele deveria passar no parque e não mais na fortaleza. Só que nem eu entendia o espanhol dele, nem ele entendia o meu português. Entrei na sala onde estavam dois guardas do parque e perguntei se algum deles entendia português. Um disse que não, o outro falou que enrolava. Já servia. Fiz o cara ligar para a empresa e explicar minha situação. Mais um show de simpatia, o guarda me ajudou muito. Resolveu minha situação, me deu carona até o ponto de ônibus na estrada e eu consegui enfim embarcar para Punta del Este.
 
Os perrengues enfim acabaram, certo? Quem dera. Antes de chegar na rodoviária de Punta, vi pela janela o hostel que iria ficar: El Viajero, o qual já aproveito para deixar minha recomendação. Todos desta rede são excelentes no Uruguai. Enfim, calculei de cabeça a distância dele até o momento em que desci do ônibus na rodoviária. Pertinho. Nem precisava pegar táxi. Barbadinha. Vou andando até lá. Acontece que Punta é um deserto na baixa temporada, imagine à noite então. A iluminação da cidade também é péssima. Resultado: me perdi pelo caminho. Fiquei andando por mais de uma hora sem rumo. E não conseguia achar absolutamente ninguém na rua para me informar. Passei por ruas em que os cachorros latiam desesperadamente para mim e cheguei a correr de uns dois deles que babavam como loucos e me perseguiram (é sério). Quando encontrava algumas pessoas, as informações eram desencontradas.
 
Eram 22:00 da noite quando eu me rendi. Iria dormir na rua mesmo. Não tinha nenhum táxi na rua pra apelar. Não aguentava mais, depois de tudo que tinha passado naquele dia. Apostei minhas últimas fichas no Hotel Conrad, lugar referência na cidade, que pode ser visto de longe de vários pontos. Chegando lá perguntei a um cara que estava andando em frente ao hotel e ele me deu as indicações. Era praticamente vizinho do hostel. Aleluia! Lugar encontrado! Tomei um banho, comi um rodízio de pizza no local, conheci um grupo de quatro brasileiros, saímos pela cidade de táxi e ficamos conversando e jogando videogame até altas horas da madruga.
 
Bela forma de começar essa minha primeira experiência sozinho em um outro país.

Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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