[dropcap style=”style3″]N[/dropcap]a época em que a América do Sul era dominada pela Espanha e Portugal, Colonia del Sacramento despertou a cobiça das duas potências. O principal interesse era militar, já que a cidade é um ponto estratégico no Rio da Prata. Mas hoje em dia, são os brasileiros e os argentinos que invadem com maior frequência este território uruguaio. Os atrativos agora são outros: o clima tranquilo, romântico e acolhedor do local, a arquitetura histórica e as charmosas ruas com lampiões coloniais.

Para muitos viajantes, Colonia costuma ser um ponto de passagem entre Montevidéu e Buenos Aires. Mas ela em si já é uma ótima opção turística. Eu resolvi conhecê-la em um passeio de um dia, pois estava com o tempo curto. Como acordei mais tarde do que o previsto, só consegui pegar o ônibus da COT às 11:30 em Montevidéu, chegando por volta de 14:00. Passagem é de 179 pesos uruguaios ou 17,90 reais. E optei por retornar às 17:30, na hora do pôr-do-sol. A verdade é que Colonia é pequenina, nestas 3h30min consegui conhecer praticamente tudo. Mas ela vale bem mais tempo do que isso.

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O dia estava muito bonito nesta sexta-feira. Céu azul, ensolarado, mas com clima de inverno. Os galhos secos das milhares de árvores dominavam a paisagem da cidade. Logo que eu cheguei, procurei um lugar para almoçar, mas achei o preço dos restaurantes um pouco elevados. Escolhi um lanche rápido e barato na padaria, que enganou bem a fome. Entre a rodoviária e a orla, há um bom número de casas e estabelecimentos comerciais mais modernos, digamos assim. Eu tinha a impressão de que toda a cidade era no estilo colonial. Mas os traços de antiguidade ficam na Ciudad Historica, na direção da orla.

Os lampiões são os principais símbolos de Colonia. Para onde quer que se olhe, lá estão eles compondo a paisagem e deixando as fotos mais interessantes. A graça de aproveitar a cidade é deixar-se perder pelas ruas. Andar de um lado para o outro sem propósito nenhum. Esquecer um pouco do relógio e da rotina. Não dá para ficar estressado por aqui. Há banquinhos e murinhos para se escorar em todo canto. Ótimo para tirar um cochilo, meditar, conversar ou namorar. No ônibus da ida, por exemplo, ouvi a menina da poltrona ao lado conversando com o namorado. Ele era de Buenos Aires, ela de Montevidéu. Colonia era o ponto de encontro. Achei até poético.

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Cheguei lá pelas 20:00 em Montevidéu. Apesar do dia ter sido bem proveitoso, praticamente não tinha conversado com ninguém e isso já estava me deixando inquieto. Depois de perturbar a Eugenia, a recepcionista do hostel, fui até a sala onde estava a maioria dos hóspedes e ouvi três caras falando em português. Nem pensei duas vezes, me intrometi no assunto e me apresentei. Dois deles eram de Brasília e um de São Paulo. Depois de muita conversa, combinamos de sair mais tarde para conhecer os principais atrativos noturnos da capital.

Enquanto eu esperava por eles, fiquei sentado no sofá vendo televisão. A recepcionista apareceu por lá e perguntou se eu ficaria para a aula de dança. Nem sabia do que ela estava falando, mas respondi que não poderia, que sairia em instantes. Mas os caras demoraram tanto para aparecer, que a tal aula começou. O professor era um funcionário do hostel, as alunas eram duas lindas alemãs. Fiquei observando do sofá. Tudo começou com um tango, que também é típico no Uruguai e não só na Argentina. Quando o professor descobriu que eu era brasileiro e carioca, praticamente me obrigou a ensinar a eles como sambar. Como se eu soubesse alguma coisa. “Mas, como assim? Todo carioca sabe sambar”, foi a resposta que ouvi. “Não, não é o meu caso”. Um robô teria performance melhor. Mas de tanto perturbarem, fui obrigado a reconsiderar o convite. Pensei comigo, ninguém aqui sabe nada, faço qualquer coisa que eles nem vão perceber. Claro, pesou na minha decisão o fato das alemãs terem insistido tanto e ser aquela uma boa chance de me aproximar delas. Jorge Aragão tocando no som, eu fingindo e elas acompanhando.

Até aí, tudo bem. Mico superado. Próxima etapa era a salsa. Nisso, os colegas brasileiros já haviam aparecido por lá, assim como uma nova loira alemã. Agora eram duas loiras e uma morena. Dei minha participação por encerrada, salsa com certeza não era minha praia. A nova loira não se conformou, como pode um carioca não saber dançar salsa? Pois é, esse pessoal precisa se informar melhor. Como se a América do Sul fosse toda igual. Mas ao invés de me intimidar com a pressão, provoquei. “Por que então você não me ensina?”. Mais ridículo que o samba fajuto foi aprender salsa com uma alemã. Ela me ensinando os passos, o movimento das mãos e eu tentando acompanhar. Em certo momento, ela olhou para mim e disse: “You are the man”. Nossa, meu ego foi lá em cima. Aprendi rápido, pelo visto. Ela devia estar dizendo que eu era “o cara”. Continuei no ritmo, com um sorrisão no rosto. Algum tempo depois, ela resolve falar em espanhol: “Tu és el hombre”. Caramba, sendo paquerado agora em dois idiomas. Eu estava com tudo mesmo. Na terceira vez que ela falou comigo, novamente em espanhol, o tom foi um pouco diferente, mais enérgico: “Você está me entendendo? Você é o homem. É você que tem que guiar a dança, não eu!”. A minha cara foi lá embaixo. Desaceleração recorde de ego.

Resumo da história: não consegui nada com nenhuma das alemãs e ainda fui zoado. O jeito foi manter o plano inicial e sair para conhecer a noite de Montevidéu com os brasileiros.