[dropcap style=”style3″]T[/dropcap]odo mundo sabe que uma das grandes neuroses dos nossos tempos está relaciona à parte estética e à beleza física. Cirurgias plásticas, tratamentos de pele, proliferação de academias, dietas milagrosas e por aí vai. A onda é ser magrinho ou saradão, magrinha ou gostosona. Padrões de beleza são coisas que variam de acordo com a época e com o gosto de cada um. Na Colômbia, existe um artista que é muito famoso por retratar personagens gordinhos, tipo físico em baixa ultimamente. Sejam humanos, animais, objetos ou plantas, não importa. As esculturas e pinturas de Fernando Botero sempre valorizam as curvas e as formas mais cheinhas. Ele é natural de Medellín, e por lá é bem comum encontrar suas esculturas na rua e réplicas de seus quadros nos camelôs. Além disso, o principal museu dedicado ao trabalho do artista fica na cidade. Por aqui, ter uns quilinhos a mais não chega a ser algo tão condenável assim. Pode ser até poético ou charmoso…

Nos posts de Cali, eu comentei sobre o fato de que a cidade tinha sido uma escolha ruim e acusei as meninas de culpadas. Mas aqui vem o troco delas. Também não queríamos incluir Medellín no nosso roteiro, mas uma vez na cidade, percebemos que dois dias foram até pouco para conhecer e aproveitar as atrações locais. Nessa, elas tinham razão. Ponto para o time feminino. Em um passado recente, falar de Medellín era mencionar o cartel de drogas, a pobreza, as inúmeras favelas e uma estrutura urbana deficitária. Hoje em dia, citá-la é valorizar sua luta contra o tráfico, a pacificação das comunidades carentes, um sistema de transporte eficiente e o orgulho de levar a fama do lugar que possui o povo mais simpático e bonito da Colômbia (este último ponto admitido por colombianos de outras cidades).
 
Depois de passar a noite no ônibus, desembarquei na rodoviária com os amigos Ratto e Cíntia. Não me dou muito bem em percursos longos de ônibus, mas milagrosamente consegui dormir muito bem nessa viagem. A Cíntia, então nem se fale. Magrinha e compacta, conseguiu aproveitar como ninguém o espaço reduzido da poltrona e dormiu que foi uma beleza. Bom, invejas à parte (rs), chegamos às 7h da manhã e aproveitamos para tomar café por lá mesmo, acompanhado do pandebono, uma versão colombiana do nosso pão de queijo. De táxi até o hostel Casa del Sol foram uns 15 minutos e lembro que o preço ficou entre 15 e 20 mil pesos. A nossa ideia era guardar nossas coisas no hostel, dar uma volta pelas redondezas e depois sair com o restante do grupo, que chegaria depois. Mas eles tiveram tanta dor de cabeça com a empresa aérea Aires que acabaram chegando mais tarde que o esperado. Tivemos que curtir o primeiro dia na cidade sem os demais. Aliás, para quem está pensando em viajar de avião pela Colômbia, a Aires é a maior roubada. Os preços bem abaixo das concorrentes são compensados pelo péssimo serviço, atrasos e cancelamentos constantes de voos.
A primeira recepção em Medellín justificou a fama da cidade de ter as mulheres mais bonitas do país. Diana, uma morena de uns 25 anos, era a atendente da parte da manhã e foi disparada a mais linda das colombianas que eu vi. A simpatia e o sorriso sensacional deram a ela o título de musa do mochilão 2011. Ela nos deu um mapa e todas as indicações detalhadas dos atrativos da cidade. Foi com ele que nos guiamos durante os dois dias. Primeiro destino foi a Plaza Botero, onde ficam as famosas esculturas das gordinhas. Para chegar lá partindo do hostel foi bem simples, pois o metrô da cidade é muito bom. Da estação Floresta, na linha laranja, fomos até a de San Antonio, onde é feita a transferência para a linha azul. Basta então seguir na direção Niquía e saltar na estação Parque Berrio. Os atrativos da área estão todos colados: o Palacio de la Cultura Rafael Uribe, a Plaza Botero e o Museo de Antioquia, onde fica uma exposição permanente de quadros e exposições de Botero. Ao contrário do Museo del Oro, em Bogotá, esse aqui vale muito a pena conhecer (segue o mapa do metrô de Medellín na imagem abaixo).

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Passeamos por todo o centro da cidade, entramos em lojas de artesanatos, lojas de materiais esportivos (onde comprei minha camisa da seleção colombiana), lanchonetes e livrarias. Resolvemos então conhecer um dos teleféricos da cidade, que são chamados de Metrocables. Há um na parte oeste e outro na parte leste. Optamos pelo da parte leste, que sai da estação Acevedo. O passeio é muito interessante e permite ao viajante conhecer uma outra realidade de Medellín: as favelas. Antes dominadas pelo tráfico, hoje são controladas pelo governo e concentram alguns investimentos na parte de educação e de reurbanização. Claro, ainda estão longe de serem lugares ideais para moradia, mas já se vê uma evolução muito grande. O ponto final do Metrocable é próximo à Biblioteca España, que concentra diferentes atividades educacionais e lúdicas. Fizemos um tour gratuito pelo seu interior e foi muito legal conhecer o trabalho feito ali dentro. Mas antes teve a história do sorvete.

Estávamos caminhando pela favela, observando o movimento, as casas, as pessoas, e nos recuperando ainda da tensão do passeio. Sim, apesar de já ter enfrentado vários lugares com altura e adrenalina, nunca fico tão a vontade a metros de distância do chão. E o Metrocable passa muito em cima antes de “aterrisar” na favela. Temos no grupo um viciado em doces e sorvetes, que é o Ratto. Os olhos dele brilharam quando viram um casal saindo de uma sorveteria com um pote gigante de 1 litro, numa mistura de vários sabores e fatias grandes de frutas. Foi aí que eu regredi uns 15 anos de mentalidade e resolvi fazer uma aposta: cada um comprar um daqueles e ver quem acabava primeiro. Mas não era um sorvete para ser tomado por apenas uma pessoa. O pior é que ele concordou e cada um comprou o seu, que custava uns 8 mil pesos. A Cíntia ficou com um mais modesto e normal. Não deixou de ser engraçado e idiota os dois quase vomitando para não dar o braço a torcer e terminar o sorvete inteiro. No fim das contas, ele desistiu primeiro…rs.

 

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Depois do passeio tentamos ir ao Jardim Botânico ou ao Aquário, mas ambos fechavam às 17h e não conseguimos. Curtimos então o fim de tarde no Parque de los Deseos, deitados em um dos banquinhos de lá. O lugar fica cheio de jovens e famílias. Mais tarde, nos encontramos com o restante do grupo e fomos conhecer os atrativos noturnos da cidade. O lugar onde os jovens iniciam a noite é o bairro Rosa, nas imediações do Parque Lleras. Lá há uma variedade enorme de restaurantes, lanchonetes e bares, além de algumas discotecas. A região fica lotada nas sextas e sábados. O movimento impressionou a todos. Depois de lá, muitos costumam ir para o Barrio Colombia, onde ficam as principais discotecas da cidade.
 
Nesse dia agitado e muito corrido pela cidade, fizemos uma maratona para conhecer todos os atrativos. Mas foi um dos dias mais proveitosos de toda a viagem, muito disso possibilitado pelas indicações precisas da Diana no hostel e pelo bom sistema de transportes de Medellín. Voltamos para o hostel já de madrugada, mortos depois de um dia longo e muito intenso…
 
 
– Reforçando que para se locomover na cidade, o metro é o meio mais simples, econômico e eficiente. Ele abrange os principais atrativos turísticos e pesa pouco no bolso. Deixe o táxi apenas para se locomover da rodoviária até o seu local de hospedagem ou para conhecer o Cerro Nutibara, onde fica o simpático Pueblito Paisa. Para chegar no aeroporto, que é bem distante do centro da cidade, tente fechar um esquema com algum motorista de van. Os preços costumam compensar muito mais.
– A maioria dos atrativos da cidade fecham às 17h, então é bom montar a programação do dia respeitando esses horários. No caso do Jardim Botânico, quem estiver lá depois de fechados os portões ainda consegue aproveitar o lugar por mais tempo. Pelo que percebemos, há uma tolerância maior com quem ainda está lá depois do fechamento.

Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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