[dropcap style=”style3″]A[/dropcap]ideia era começar o post pela lógica narrativa, ou seja, do início. Mas o pôr do sol neste dia foi tão lindo e impressionante, que os outros fatos acabaram ficando em segundo plano. Até hoje não vi uma cena do anoitecer tão bonita como a desse dia em San Andrés. Ficamos do outro lado, apenas embasbacados olhando, quase aplaudindo, enquanto a lua surgiu meio que envergonhada de não ter brilho próprio para manter o espetáculo.Toda essa pseudo-poesia afrescalhada aí em cima foi mais ou menos o efeito que a paisagem de San Andrés provocou em mim nesse dia 22. Nem os perrengues de quase provocar um acidente de trânsito, andar por um cemitério durante a noite e esquecer os amigos em uma praia deserta servindo de lanchinho de mosquitos foram capazes de estragar o dia. Ficou curioso para entender toda essa história? Continua lendo, então…
 IMG_4621

 

IMG_4538

Não lembro ao certo quem sugeriu que alugássemos um carrinho de golfe para dar uma volta completa na ilha. Sei que eu não estava muito empolgado com a ideia. Excesso de frescura, gasto extra, lentidão do bichinho foram algumas das coisas que me vieram a cabeça para ser contra. Mas tive de admitir que foi muito  útil. Primeiro porque era um aluguel informal, sem a burocracia que envolve alugar um carro “normal”. Qualquer um poderia dirigir, sem necessidade de carteira e conseguiríamos passear debaixo do sol escaldante sem maltratar a sola dos pés e sem precisar esperar horas em pontos de ônibus. Na parte da manhã/início da tarde, dois amigos se revezaram na direção. Tivemos uma noção mais precisa de como a ilha era bonita, de todas as praias que ela tinha, além de conhecer os locais onde o pessoal mais humilde mora. Passamos pelos principais pontos turísticos, dos quais já opino que a Laguna Big Pond é maior furada. E conseguimos perceber que a limpeza em alguns pontos deixa muito a desejar. Triste ver um paraíso como este sem o devido cuidado.

Em outros lugares, o luxo e a riqueza eram mais nítidos. Aliás, ver carros importados, muitos até sem placas, é bem comum em San Andrés. Quando paramos para almoçar na lanchonete Presto, por exemplo, um humilde Porshe vermelho estava estacionado do outro lado da calçada. Depois de circular toda a ilha em um período curto de tempo, levamos um casal de amigos até o aeroporto, onde eles iniciaram suas conexões para chegar em São Paulo.

IMG_4579

A volta de carrinho de golfe também foi importante porque conseguimos identificar quais eram as melhores praias. Assim, depois do almoço voltamos até aquela que mais nos agradou. Eu estava perturbando todos porque queria dirigir o carrinho em algum momento. Aqui no Brasil, eu ainda não tinha tirado minha habilitação e estava na sede para dirigir. Fora que seria impossível fazer qualquer besteira em um veículo simples e lento como aquele. Era só freio, acelerador e volante. Nada de marchas ou embreagem. Dá pra errar desse jeito? Dá. E deu. Em um belo momento, ainda na região central, eu entrei em um cruzamento sem olhar para os lados. Que beleza… Era carro buzinando da direita, um motoqueiro me xingando em espanhol do lado esquerdo e os amigos dentro do carro me xingando em português mesmo.

Ok, vida que segue (ainda bem) e lá fomos nós até a nossa praia escolhida. Mas havia um embate: de um lado, duas amigas e um amigo queriam ficar curtindo os últimos raios solares na areia até escurecer; do outro lado, um amigo queria andar mais 20 minutos com o carrinho até um ponto onde poderia tirar fotografias perfeitas do pôr do sol. Eu queria fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E foi mais ou menos assim que fiz. Tirei a roupa, corri, dei um mergulho, coloquei a roupa de novo e entrei no carrinho. Os outros três permaneceram lá na praia. O combinado era que a gente voltasse tão logo o sol sumisse no horizonte.

O amigo cearense e eu fizemos ótimas fotos, ficamos extasiados com a paisagem, com as cores perfeitas, o mar, as árvores, a iluminação adequada e o solzão indo dormir lá na frente. Essa parte nem dá pra explicar direito, melhor conferir nas fotos mesmo. Quando o espetáculo terminou, seguimos felizes até o carrinho para dar a partida e reencontrar o restante do grupo. E quem disse que o carrinho voltou a funcionar? Fizemos de tudo e nada. O coitado partiu dessa para melhor. Pedimos ajuda a um senhor que possuía um bar ao lado (e uma filha linda) e não houve nenhuma evolução. Depois de uma hora de tentativas, meu amigo conseguiu ligar para o cara que havia alugado o carrinho e ele prometeu estar lá em uma hora.

IMG_4701  IMG_4709

Preocupados com nossos amigos, que não tinham notícias nossas e já esperavam há quase duas horas na praia resolvemos nos dividir. Ele ficaria esperando o “socorro” no bar, enquanto eu iria de ônibus até a praia. Mas eu não lembrava de jeito algum qual era o lugar. Ainda mais no escuro. Tive de arriscar e saltar em um ponto que eu achava que era perto. Mas não era. Andei um bom pedaço até chegar realmente na bendita praia. Incluindo um trecho do caminho totalmente escuro, praticamente dentro de um cemitério, onde só dava pra enxergar alguma coisa graças à lua e aos vagalumes. Minha preocupação não eram os mortos, mas sim dar de cara com algum maluco naquela escuridão e acabar fazendo companhia para os presuntos. Por sorte, depois de caminhar bastante, encontrei a praia e os amigos me xingando, sendo devorados pelos mosquitos. Depois de uns 20 minutos, o amigo cearense, que tinha ficado no bar, passou com o novo carrinho e conseguimos enfim voltar ao nosso hotel.

Com um pôr do sol como esse, nem dá para reclamar de nada, não é? Fora que, no Caribe, até os perrengues têm um certo charme…


Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

Posts do autor