[dropcap style=”style3″]Q[/dropcap]uando eu estava no colégio estudava com muito empenho História e Língua Portuguesa, mas não dava tanta bola assim para Geografia. Aquele papo de latitude, longitude, meridianos, trópicos, hemisférios, era tudo muito chato. Não sei se foi culpa minha ou dos professores, mas o decoreba teórico prejudicou meu interesse. As viagens mudaram muito essa visão da disciplina. Passei a adorar mapas (alguns me chamam de doido por isso) e a estudar aspectos de relevo, hidrografia e clima na hora de elaborar os roteiros. Mas em nenhum outro momento aprendi tanta geografia na prática como no passeio até a Linha do Equador, aquela que divide os hemisférios norte e sul. No parque Mitad del Mundo, a 20 km de Quito, está o marco oficial, protegido por toda uma estrutura e marketing; alguns metros depois está o Museo Intiñan, bem mais simples, mas que muitos defendem como o verdadeiro lugar por onde passa a Linha do Equador.

Polêmicas à parte, acordamos cedo para conhecer os dois, que são passeios obrigatórios em uma viagem ao país. Agências turísticas fazem o passeio até lá, mas como bons mochileiros resolvemos ir por conta própria. A viagem de ônibus leva pouco mais de uma 1 hora. O primeiro passo é tomar um ônibus no centro ou no bairro Mariscal que vá até o terminal Ofelia, no norte de Quito. Essa é a parte mais demorada do trajeto. Esse terminal fica em frente ao estádio da LDU, time equatoriano com maior expressão no cenário internacional no momento. Uma vez no terminal, é bastante fácil seguir adiante. O ônibus tem uma espécie de adesivo gigante no vidro da frente com o nome Mitad del Mundo escrito. Ele deixa o visitante bem na entrada do parque. Para voltar de lá, o esquema é o mesmo. A passagem na época não passava de 50 cents para ir e 50 cents para voltar. Sem muitas dificuldades chegamos ao nosso destino.

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A entrada na Ciudad Mitad del Mundo é de 2 dólares. A área é considerada como uma cidadezinha fictícia, com estrutura de lojas, restaurantes, praças e casinhas coloniais. O que não vai faltar é lugar para comprar lembrancinhas. Escolha bem, o souvenir que eu comprei já começou a descolar em algumas partes tão logo eu voltei para casa. Ser pão-duro nem sempre compensa. Assim como a maioria dos visitantes, turistas e estudantes, tiramos aquela clássica foto de um pé no hemisfério norte e outro pé no hemisfério sul. Infelizmente o lugar vive abarrotado de pessoas e em alguns lugares se formam filas para tirar foto de um ponto estratégico. O negócio é ter paciência para buscar o melhor ângulo. No centro da Linha do Equador, há o Museu Etnográfico, com informações sobre os povos que formaram o Equador.

Aqui vale uma rápida explicação do que significa a tal Linha do Equador. É um marco imaginário que corta a Terra horizontalmente ao meio. No Equador está o início da linha, o marco zero, a latitude zero. Ou seja, se quisermos dar uma volta ao mundo “basta percorrer” essa linha até que se chegue novamente no mesmo ponto. A linha que corta o mundo verticalmente é o Meridiano de Greenwich, dividindo o ocidente do oriente e determinando os fusos horários. Nesse caso, se usa o termo longitude para estabelecer a distância de um determinado lugar em relação a cidade de Greenwich, que fica nos arredores de Londres, e é o marco zero.

 

Na hora do almoço, não tem muito para onde correr. Escolhemos o lugar que parecia ser o menos caro e recarregamos nossas energias. Os valores não são os mesmos do centro de Quito, mas também não assustam tanto assim. Na segunda parte do dia, fomos andando até o Museo Intiñan, que ficava bem perto, a uns 150 metros. A estrutura dele é quase toda a céu aberto e um guia acompanha os visitantes durante todo o percurso, explicando não só detalhes de antigos povos indígenas, como também fazendo diversas experiências para comprovar que é nesta área que está a verdadeira Linha do Equador. A entrada custa 3 dólares e o museu funciona das 9:30 às 17:00.

SAM_7273Esse passeio é de longe muito mais legal que o primeiro. A graça da Ciudad Mitad del Mundo é a estrutura e as fotos clássicas. Mas é no Intiñan que a gente aprende e se diverte de verdade. São várias histórias curiosas dos povos indígenas, algumas bizarras envolvendo a decapitação de adversários e outras sobre rituais sinistros. Na segunda parte da visita, o guia dá início ao “laboratório físico-geográfico”. Lembro de dois experimentos clássicos: o da água e o do teste de força. No primeiro, uma pia móvel é colocada à esquerda da linha, depois no centro e depois à direita. O guia joga água dentro e depois tira a tampa do ralo. Quando está no hemisfério sul, a água desce girando no sentido horário; no hemisfério norte, desce no sentido anti-horário; no centro, cai direto, sem girar.

No segundo experimento, feito em duplas, o guia pede que um dos componentes do par cruze as mãos. O outro parceiro tentará separar as mãos do amigo em duas situações: no centro da Linha e depois mais longe dela. Afastado do centro, a tarefa não é das mais fáceis, exige um esforço maior. No centro, porém, a pessoa fica mais “fraca” e solta as mãos com facilidade. A explicação é que na Linha a distância para o eixo geográfico da Terra é maior, e com isso a força da gravidade é menor. Aliás, pelo mesmo motivo, nosso peso diminui em cima da Linha. Mas nem adianta querer forçar a barra e querer emagrecer desse jeito. Vá malhar e coma menos, beleza?

E por falar em exercícios, o dia seguinte exigiria muito da nossa parte física. Então, o jeito foi dormir cedo para acordar mais disposto…

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– No fim do passeio pelo Museo Intiñan, você pode carimbar o seu passaporte com uma marca exclusiva, que indica a passagem pela “metade do mundo”. Serve como recordação, personalização diferente do seu documento e para fazer inveja aos amigos na volta ao Brasil. Não esqueça de levar o passaporte para o passeio e pedir ao guia pelo carimbo no fim da visita.