[dropcap style=”style3″]O[/dropcap]título em inglês deste post não é uma tentativa minha de mostrar domínio do idioma estrangeiro, tampouco de querer dar uma aparência mais internacional ao blog. É a trilha sonora que marcou o fim de uma super aventura no Parque Nacional Cotopaxi. Depois de muito esforço físico e psicológico, superando o cansaço e o medo em alguns momentos, pude comemorar o fato de ter terminado um passeio de muita emoção e adrenalina pelo vulcão Cotopaxi e seus arredores. A música do Queen em questão foi cantada por uma chilena completamente louca assim que a mesma chegou na etapa final do desafio, a linha de chegada. Não só foi um dos pontos altos do dia, mas de todo o mochilão. We are the champions, my friends…But it’s been no bed of roses. Já no começo do dia, nada de moleza. Acordamos bem cedo, lá pelas 6h. E o horário é especialmente cruel porque a cidade amanhece bem friorenta. Compramos com antecedência o passeio com a agência Gulliver, que se mostrou um ótimo custo/benefício. Enquanto muitas operadoras turísticas cobravam 70 dólares, a nossa escolhida custou 37 dólares por pessoa e valeu muito a pena. A única coisa que não estava incluída nesse valor era a entrada no Parque Nacional, que custava 10 dólares. Mas todo o restante do equipamento, o transporte e o lanche/almoço faziam parte do pacote.

Às 7h nosso grupo de mochileiros e outros viajantes se encontraram no Restaurante Coffee e Toffee para tomar um café e partir nos carros 4×4.No trajeto de quase 2 horas de Quito até o Parque Nacional já dava pra ter uma noção da grandiosidade do Cotopaxi, com seus 5.897 metros de altitude, o mais alto em atividade no mundo. Isso mesmo, em atividade!  Significa que ele pode a qualquer momento entrar em erupção, cuspir fogo ou cinzas para todo lado sem fazer cerimônias. E como o controle de previsão das erupções vulcânicas é bem fraco no Equador (segundo os próprios guias), podia dar droga a qualquer momento. Mas essa era justamente uma das graças do passeio. E naquele momento, a companhia de lindas suíças e francesas no carro ajudava a amenizar qualquer sentimento de inquietação ou ansiedade.

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No pleasure cruise. I consider it a challenge (…) Uma parada estratégica é feita logo na entrada do parque. O guia explica em inglês e espanhol vários detalhes e informações sobre a área, sobre os efeitos sismológicos e vulcânicos, sobre a vegetação e os animais que formam o ambiente. Bem perto dali, em barracas improvisadas, equatorianas de traços indígenas vendem peças de vestuário e artesanatos. É um bom momento para comprar luvas ou casacos caso tenha esquecido. Claro que foi o meu caso. Com os míseros trocados de dólar que tinha no bolso, tratei de garantir um par de luvas. Não pude comprar mais nada, pois estava apenas com uma nota de 100 dólares e, como já disse em um post anterior, é praticamente impossível conseguir trocar notas de mais de 20 dólares no país.

IMG_5584Uma parte muito importante desse passeio é o material que a gente leva. Eu vacilei nas roupas de frio, quando montei a mala para a viagem fiquei com a mente no Caribe, sol e calor. Acabei não reforçando nas roupas mais pesadas. O certo é ir com calças apropriadas, gorros que cubram as orelhas, luvas, botas ou tênis mais aderentes e jaquetas impermeáveis. Também é fundamental rechear a mochila com garrafa de água (2 litros no mínimo), chocolates e salgadinhos. Vai fazer a maior diferença na hora da “escalada”.

Lá pelas 11h da manhã, o carro nos deixou em um ponto estratégico no vulcão, a uns 4.000 metros de altitude. A caminhada não começa da base dele, até porque só profissional para aguentar todo esse trajeto. Nosso primeiro desafio consistia em chegar a 4.800 metros, ou seja, caminhar por uns 800 metros em zigue-zague até um refúgio. Para seguir até a boca do vulcão só com equipamento e treinamento profissional também. Mas esses 800 metros já representam uma aventura e tanto, principalmente porque a altitude é cruel, a respiração muito complicada e o frio é um absurdo.

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(…) before the whole human race and I ain’t gonna lose. Para mim subir bem o vulcão, em um ritmo forte era questão de honra. Na subida ao Chalcataya, na Bolívia (relembre aqui), eu tive muitas dificuldades com adaptação à altitude e subi no sufoco, com o coração disparando a cada passo. Queria fazer diferente no Cotopaxi, controlar melhor a parte física. E consegui subir bem, sempre no pelotão de frente, acompanhado da nossa mais nova amiga, a chilena louca, que ia me animando com suas histórias e expressões faciais hilárias. Para controlar bem os efeitos da altitude e manter as energias, fiz paradas estratégicas para beber água e comer os chocolates trazidos de San Andrés. Mas o pior de tudo na caminhada eram os ventos gelados e a neve que começou a apertar. Com as orelhas congelando, tive de improvisar e cobri-las com as luvas. As mãos iam dentro do casaco. A “escalada” levou mais de uma hora e teve um dos momentos mais tensos na parte final. Havia um caminho muito estreito que precisávamos atravessar pela neve. Da largura de dois pés juntos, o que nos obrigava a andar no estilo Gisele Bündchen na passarela, alternando as pernas, uma de cada vez. Só que do lado esquerdo ficava uma montanha de gelo e do lado direito a ladeira que poderia virar um tobogã para a morte. Que tal andar nesse esquema aí com um tênis de sola gasta e escorregadia? Se senti medo? Imagina…

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O jeito foi  seguir com cagaço cautela até o fim. A sensação quando se chega no refúgio é boa demais. Alívio total. Mas quem disse que era só isso? Depois de todos os viajantes chegarem, foi feito um grande lanche de confraternização. Tinha gente de tudo quanto é canto do mundo, uma salada de línguas diferentes. Depois de umas duas horas de descanso e muito chocolate quente, começava a segunda parte do desafio: descer o vulcão de bicicleta!

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And we’ll keep on fighting ‘till the end. A descida do vulcão não perdia em nada em adrenalina para a subida. O terreno era muito íngreme e as bicicletas pegavam velocidade com uma grande facilidade. Não se pedalava nessa parte do trajeto, o controle ficava apenas nos freios. A dificuldade estava nesse detalhe, porque se a pessoa estivesse muito rápida e acionasse o freio dianteiro poderia capotar e dar com o rosto no chão. Um baita estrago. Para piorar, a visibilidade estava horrível. A neblina estava muito forte e não dava pra enxergar nada a 5 metros de distância. Fui um dos últimos a sair, minha bicicleta não colaborou muito no começo, mas ao longo do percurso consegui acelerar mais e ultrapassar outras pessoas. Não era uma corrida, eu que criei um desafio pessoal de ser um dos primeiros a chegar no ponto final. Havia uma parte mais plana no meio do trajeto e depois de 1 hora de pedalada bem cansativa, cheguei na Lagoa Limpiopungo. Dos cerca de 20 ciclistas, fui o quarto colocado e já me senti realizado. Superar duas aventuras puxadas em um mesmo dia é sensacional. Era como se eu tivesse vencido uma competição olímpica e estivesse recebendo minha medalha de ouro. Exagero? Pode até ser, mas só passando por essa experiência fantástica para entender do que estou falando.

Enquanto eu tirava onda de atleta e recuperava o fôlego sentado à beira da lagoa, vi e ouvi a amiga chilena chegando no horizonte. A doida fazia piada do momento, mas fechava o dia com chave de ouro, cantando: No time for losers, ‘cause we are the champions of the world.

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Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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