[dropcap style=”style3″]O[/dropcap]dia 1º de fevereiro seria oficialmente o nosso último em terras estrangeiras. No início da noite, pegaríamos o avião com destino ao Brasil. Viajar é sempre bom demais, mas às vezes bate saudades de casa também. Ratto, meu amigo mochileiro de Campinas, e eu queríamos aproveitar intensamente a nossa despedida da Colômbia. Na noite anterior já havíamos curtido a Zona T, que são duas ruas que se cruzam na  Zona Rosa e que tem os melhores bares e restaurantes da região. Curtimos a boa comida e um ótimo som ao vivo, admirando mais uma vez a beleza das colombianas. Acordamos dispostos e resolvemos ir até o bairro da Candelária, que fica ao lado do centro da cidade. Mas desde o início do dia, algo já indicava que a tal Lei de Murphy (“se alguma coisa tem que dar errado, dará da pior forma possível”) ditaria o nosso ritmo em Bogotá.

A primeira “grande” ideia do dia surgiu assim: “Que tal experimentarmos o sistema de ônibus da cidade?”. A capital colombiana adota o sistema de corredores expressos, que parecem metrôs na superfície. Ficou famosa mundialmente por isso. Mas não é tão simples assim, se você não se informa direitinho sobre as linhas e destinos. Saímos da Zona Rosa e tomamos um ônibus que nos deixou quase fora dos limites da cidade. O fiscal de um dos terminais nos deu a informação errada e fomos parar no fim do mundo. Aí, fomos perguntar a outras pessoas como fazer para voltar para o bairro da Candelária. Nos indicaram um ponto ali perto, pegamos um outro ônibus, dessa vez um comum, fora daquele sistema expresso. E realmente estava escrito Candelária na frente dele. Entramos pela frente e nos sentamos lá atrás. Pensamos que eles seguiam a mesma ideia do Equador, onde a passagem é paga a um cobrador que fica circulando dentro do ônibus. Mas o berro do motorista lá na frente, xingando a gente em espanhol, mostrou que não era bem assim. Tinha que pagar ao próprio logo na entrada.

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Depois de muito tempo no ônibus começamos a ver pela janela uma paisagem muito feia e pobre. Um lugar meio abandonado e com gente mal encarada. Resolvemos perguntar ao motorista se a Candelária estava perto e ele disse que era ali mesmo. Acontece que Candelária também era o nome de uma favela na região metropolitana de Bogotá. Tinha duas Candelárias e a gente não sabia! Descemos naquele lugar sinistro e resolvemos apelar, tomar um táxi para o centro. Nessa brincadeira, metade do dia já havia sido perdido. Mas para quê o estresse? Almoçamos e o Ratto teve a ideia de ficar paradão na Plaza de Armas, observando a movimentação local e curtindo a tarde por lá.

O sol estava se pondo e eu insistia para irmos embora, mas o Ratto pedia sempre mais um minuto. Nosso voo era às 20h, teríamos de estar no aeroporto às 19h. Lá pelas 17h, depois de muita insistência saímos da praça e fomos atrás de um táxi para nos levar até o hostel e depois seguir até o aeroporto. Pelo cálculo do horário nas vezes anteriores, em menos de 30 minutos estaríamos no aeroporto. Acontece que Bogotá fica uma loucura no horário do “rush”. É tanto carro e gente circulando pelo centro da cidade que fica quase impossível de andar. Para pegar um táxi, então, só um milagre. Todos passam lotados e alguns até recusam fazer alguns trajetos por causa do engarrafamento. Nunca fiquei tanto tempo caçando um táxi como nesse dia. Para piorar o trânsito estava tão ruim, que o desepero foi batendo. O relógio correndo rápido e a gente parado no mesmo lugar. Quando enfim conseguimos chegar no hostel, arrumamos nossas coisas correndo, sem nem tomar banho e corremos atrás de outro táxi para o aeroporto. Novo engarrafamento e só fomos chegar lá às 19h50min, tarde demais para embarcar. Assim como aconteceu na ida, eu havia conseguido perder um avião novamente. Chegamos a ver o preço de passagens na TAM e Avianca para um horário mais tarde, mas todos estavam acima da realidade.

Desenrolando muito com um funcionário da Avianca, conseguimos entrar por uma área restrita, que fica atrás do balcão de atendimento do check-in e falamos com o pessoal da Varig/Gol sobre o nosso voo perdido. Resolvemos nosso problema de uma forma menos traumática, sem grandes prejuízos financeiros, mas teríamos de passar mais um dia em Bogotá.

Voltamos desanimados para o hostel depois de toda aquela correria e tivemos de aguentar mais uma noite o francês fedorento no quarto. No dia seguinte, 2 de fevereiro, nem quisemos nos afastar da Zona Rosa. Apenas curtimos os shoppings e estabelecimentos comerciais do bairro e saímos com uma antecedência exagerada para não perder mais um voo. Enfim, embarcamos de volta ao Brasil. Ratto ficando em São Paulo, eu pegando mais um avião para o Rio. Chegava oficialmente ao fim mais um mochilão pela América do Sul. Dois países incríveis desbravados, paisagens lindas descobertas, momentos incríveis em uma ilha caribenha e um vulcão ativo no “currículo” de viajante, além de várias histórias para contar ao povo de casa. Hora de planejar as próximas…

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Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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