[dropcap style=”style3″]N[/dropcap]ós brasileiros temos o costume de utilizar os argentinos como referências negativas. Isso talvez seja reflexo da rivalidade no esporte, que acaba extrapolando para o lado pessoal. Uma pena, já que nossos vizinhos têm qualidades admiráveis também. Uma dessas características que valorizo é a paixão com que vivenciam elementos de sua cultura. Nesta terça-feira, meu segundo dia em Buenos Aires, pude conhecer melhor dois pontos de intensa carga sentimental para os portenhos: o tango e o futebol. Foi sem dúvida um dos melhores dias na capital do país.

IMG_2531A primeira missão foi conhecer o estádio do Boca Juniors, a famosa e lendária Bombonera. Do hostel Che Lagarto, descemos até a Avenida Paseo Colón, que fica logo atrás da Casa Rosada. Localizamos o ponto de parada dos ônibus 64 e 152, que são dois que vão para o bairro La Boca.

Mas é bom sempre perguntar ao motorista se o ônibus vai realmente para o destino. Parece que há itinerários diferentes para uma mesma linha. Em 20 minutos se chega ao bairro, que é quase todo decorado com as cores azul e amarelo do time local.


Há muitas lojas vendendo artigos futebolísticos, pequenos museus improvisados e um bom número de estátuas de jogadores famosos. Maradona, Messi, Palermo e Riquelme são alguns dos homenageados. Tudo bem turístico, mas muito interessante para quem é louco por futebol.

O tour completo por La Bombonera não é dos mais baratos: 50 pesos, aproximadamente 22 reais. Por esse valor, o visitante pode conhecer o bom museu do Boca Juniors e contar com o serviço guiado pelo interior do estádio. Logo na entrada está a loja do clube, que vende diferentes produtos, com destaque para as camisas oficiais.

O museu é muito bem organizado e conta com estátuas de jogadores importantes, fotos antigas, a pedra fundamental do estádio, uniformes marcantes, troféus, chuteiras, bolas e flâmulas históricas, só para citar os principais. Há também uma sala onde são projetados vídeos de partidas e campeonatos antigos. Amantes de futebol vão se emocionar no local.

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A visita guiada começa em um dos setores de visão do gramado, em cadeiras muito íngremes, traço marcante e famoso do estádio, que tem esse nome Bombonera por lembrar uma caixa de bombons. O interessante na estrutura é o fato dela ser toda esquematiza para aproximar os torcedores do gramado e para exercer uma grande pressão sobre os times adversários. Por aqui, um jogo não se ganha apenas “na bola”.

Os torcedores visitantes, por exemplo, são sempre acomodados em um dos pontos mais altos, em arquibancadas mais distantes, para que sejam pouco ouvidos e abafados pelos cantos da torcida local. A principal torcida organizada, “La 12”, se concentra estrategicamente em um setor do estádio que fica logo acima do vestiário do time visitante. Logo, enquanto o adversário está tentando se concentrar no vestiário, tem de ouvir todo o barulho e a intensa movimentação que acontece no teto. A visita inclui ainda o passeio pelos vestiários e área de imprensa.

Vale lembrar aqui que fomos alertados por diferentes comerciantes locais para tomarmos cuidado com nossos pertences no bairro, mas felizmente nos sentimos seguros a maior parte do tempo e não vimos nenhuma movimentação suspeita nos arredores.

Ao sair da Bombonera, a próxima atração é o Caminito, uma região que parece ter sido toda projetada para seduzir o turista. Apesar de ter um certo clima “artificial”, digamos assim, é muito interessante e recomendo do mesmo jeito. Para chegar lá é bem simples, leva apenas alguns minutos de caminhada para quem vem do estádio do Boca Juniors. Não faltam lojas com “souvenirs”, artesanatos, roupas, além de restaurantes e exposições artísticas.

Para conhecer a Argentina em seus principais estereótipos, o Caminito é o lugar mais indicado. Pelas suas ruas, há vários elementos que nos passam a sensação de estarmos na Disneylândia argentina. Casas coloridas, decorações caprichadas, representações de personagens importantes na história do país, como Evita Perón, Carlos Gardel e Che Guevara.

Além de tudo isso, apresentações de tango são frequentes também no meio da rua. Os chapéus estão devidamente posicionados para que os turistas deixem sua contribuição para os dançarinos. E tem dança mais sensual e ao mesmo tempo elegante como o tango? Fiz questão de tirar uma foto com uma das dançarinas, simulando passos. Claro, pagando uma quantia pelo “serviço, algo como R$ 10. Aliás, figuras cobrando por fotos são frequentes por aqui. Há diferentes tipos de “Maradonas” circulando pelo local em busca de uns trocados.

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Se nossa manhã foi marcada por elementos tradicionais da cultura argentina como o futebol e o tango, nossa tarde foi de uma agradável caminhada por um dos lugares mais modernos de Buenos Aires: Puerto Madero. Antiga região portuária, foi totalmente reformulada e renovada, se tornando o bairro mais caro da cidade.

Os velhos armazéns foram substituídos por residências, escritórios, faculdades particulares, hotéis luxuosos e restaurantes chiques ao longo da década de 1990. É, sem dúvida, um dos lugares mais interessantes que o turista pode conhecer por aqui.

As opções de alimentação costumam ser mais caras, voltadas para um público que possui mais grana, mas talvez a desvalorização da moeda ajude se a intenção for fazer uma graça pelo menos um dia. Há uns dois ou três mercadinhos que também contribuem na hora de fazer um lanche. Além da parte gastronômica, Puerto Madero tem alguns museus navais que ficam no interior de pequenas embarcações. Toda a região é interessante tanto de dia quanto de noite.

Dia corrido, mas aproveitado ao máximo. Quarta-feira é dia de conhecer o bairro da Recoleta!

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Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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