[dropcap style=”style3″]A[/dropcap]ansiedade era grande nesse primeiro dia. Só não vou dizer que foi difícil dormir na noite anterior, porque estava tão quebrado da viagem do Rio pra Boa Vista e depois para Santa Elena de Uairén, que o corpo venceu a mente. Mas assim que acordei, corri para o centro da cidade de Santa Elena para tomar café da manhã, comprar água e alguns biscoitos para o trekking. A minha expectativa é que saíssemos para Paraitepui, o ponto de início da caminhada, logo cedo. Seria o melhor, teríamos mais tempo para aproveitar e chegar cedo no primeiro acampamento. Mas não foi o que aconteceu.

Nosso grupo era composto por 15 pessoas, número bem exagerado. Além de mim, havia um espanhol e uma mexicana, e 12 venezuelanos que vinham de Caracas. Acontece que este último grupo atrasou e chegou em Santa Elena bem depois do esperado. Para não nos irritar além da conta, nossa agência nos mandou de carro na frente até Paraitepui. Lá esperaríamos pelos demais. Saímos de Santa Elena em um jipe às 10:10 (horário local). A viagem leva aproximadamente uma hora. Chegamos por volta das 11:00.

Em Paraitepui, revisamos nossa equipagem, almoçamos sanduíches de presunto e queijo, acompanhados de um daqueles refrescos em pó. Fizemos nosso registro no parque, que é obrigatório, e serve para controlar a quantidade de pessoas que sobem o Monte Roraima. Apesar de eu ter percebido durante o trekking e em conversas com os guias que esse controle não é assim tão rígido. Em altas temporadas, o número de visitantes costuma extrapolar o limite saudável do lugar e tem gente que dorme fora dos “hotéis” de pedra no topo.

É obrigatório iniciar o trekking em Paraitepui antes das 14:00. É uma medida de segurança para que as pessoas não cheguem muito tarde no acampamento do rio Tek. Caminhar e montar barraca no escuro não é nada legal. Saímos perto desse limite, às 13:15. Tempo estimado de caminhada: 4 horas. Quilometragem aproximada: 12 km.

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No caminho, comecei a reparar muitas áreas vítimas de queimadas. Não me pareciam provocadas pela ação humana direta. A época era de seca e favorecia esse tipo de fenômeno. A primeira parte, creio que as primeiras duas horas, é um pouco mais difícil que o restante do caminho. Nada absurdo. Mas havia algumas subidas, especialmente em um vale grande. Depois a caminhada se deu mais em terreno plano. Não senti muito o cansaço, apesar de o peso da mochila estar incomodando um pouco. As paradas estratégicas também ajudavam a relaxar os pés, além de serem úteis para beber água.

Acho que o controle das paradas deve ser racional, para repor água e comida, para tirar um pouco a bota e deixar os pés respirarem. Mas quando se para muito, é difícil embalar um bom ritmo de caminhada. No caso do nosso grupo, apenas a mexicana, o espanhol e eu seguíamos dentro do tempo esperado de trekking. Os venezuelanos estavam muito lentos e paravam a todo momento, principalmente porque havia no grupo deles um homem mais velho, de aproximadamente 50 anos, completamente despreparado. Idade não é impeditivo, já que até idosos de 70 anos fazem o trekking, mas é preciso estar realmente preparado. Sedentários sofrem.

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Além da paisagem, com vegetação rasteira e árvores pequenas, e de uma queimada que identificamos perto do primeiro acampamento, me chamou a atenção uma menina que fazia o trekking com mala de rodinhas (?!). A pessoa realmente não tinha muita noção da coisa e apanhava a cada passo naquele terreno acidentado, cheio de pedras e outros obstáculos. 

IMG_5862Poucas vezes se perde no horizonte a visão do Monte Roraima. Na maior parte do tempo, ele fica lá na frente, imponente e desafiador. Em comparação com outros trekkings, como o que eu fiz em Torres del Paine, no Chile, achei essa característica positiva. Ver o seu objetivo aumenta o ânimo e a disposição durante a caminhada. Lembro que em alguns momentos em Torres chegava a ser desesperador não saber se estávamos próximos ou não do objetivo final.

Cheguei no acampamento do rio Tek às 17:50, ou seja, em aproximadamente três horas e meia de caminhada. Como as estimativas eram de quatro horas, no fim das contas estava em um ritmo bom. Bem cansado é verdade, sem o corpo estar ainda totalmente “aquecido” para o trekking. Mas nada que um banho revigorante no rio Tek não resolvesse. A água gelada até ajudava a relaxar os pés e a dar um novo ânimo. Apesar de já estar escurecendo e alguns mosquistos (os famosos puri puri) começarem a incomodar, foi muito bom o banho com a lua já começando a aparecer no céu.

Jantamos por volta das 20:00, o que achei bem tarde comparado a nossa hora de chegada no acampamento. Culpa dos venezuelanos atrasados e do nosso guia que insistia em acompanhá-los, nos deixando ir a frente. O jantar foi preparado por um dos carregadores de comida e barracas, e consistia em um macarrão, com carne moída e refresco em pó. Estava bem gostoso na verdade. Só ficamos um pouco decepcionados porque um outro grupo estava fazendo um frango em uma fogueira improvisada. Achamos que nosso jantar seria o mesmo. É, eu sei, inveja é uma coisa feia.

Fui para barraca logo depois do jantar, lá pelas 21:00. Estava cansado e precisava recuperar as energias. Fora que acordaríamos lá pelas 6:00 no dia seguinte. Do lado de fora, a lua cheia estava linda. Do lado de dentro, a barraca era bem vagabunda. Deveria ter comprado e levado uma decente, mas resolvi alugar com a agência. Deu nisso.

O pior é que, pouco antes de dormir, ainda tive que aturar um venezuelano sem noção. O homem mais velho do grupo, Iván, o tiozão de 50 anos. Nosso grupo era de 15 pessoas no total. Havia oito barracas. Apenas uma pessoa dormiria sozinha em uma barraca. Como a mexicana e o espanhol estavam “ocasionalmente” como um casal e todos os outros 12 venezuelanos se conheciam, a lógica era que eu ficasse sozinho. Mas o tiozão ficou tentando argumentar para o guia que precisava dormir sozinho, que era gordo e espaçoso, que roncava muito durante a noite. É óbvio que eu ignorei os protestos e fiquei sozinho em uma das barracas.

Antes de dormir, liguei a lanterna e me deparei com alguns outros visitantes inesperados: três formigas (a barraca foi montada inteligentemente próxima a um formigueiro gigante) e duas baratinhas. Como não sou um bom anfitrião, coloquei todos para fora e pude apagar de sono em paz.

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Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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