[dropcap style=”style3″]A[/dropcap]principal expectativa do segundo dia de trekking era em relação a travessia dos rios Tek e Kukenan. Para ser mais preciso, o segundo preocupava mais do que o primeiro. Como acampamos próximos ao Tek, já era nítido que ele não estava cheio e que apenas com um pouco de equilíbrio daria tranquilamente para saltar de pedra em pedra até chegar na outra margem. Já o Kukenan, era uma incógnita. A época era de seca, mas alguns dias antes havia chovido. Não sabíamos em que nível iríamos encontrá-lo. Em alguns períodos do ano, chega a ser bem perigosa a travessia de tanto que enche o rio.

Acordei neste dia às 5:00. Enrolei na barraca até às 6:00, por preguiça e acreditando que o café da manhã não estaria pronto antes. No geral, tive uma noite tranquila, apesar do formigueiro e do desconforto. Os indígenas que nos guiavam prepararam arepas (uma espécie de pão feita com farinha de milho) e café (bem aguado para os padrões brasileiros).

Iniciamos o trekking às 08:20. A previsão era novamente entre quatro e cinco horas de caminhada em aproximadamente 10 km. O objetivo: chegar no acampamento Base, aos pés do Monte Roraima. Logo no começo, como previsto, rio Tek vencido sem dificuldades. Um quilômetro e meio a frente, o rio Kukenan. Esse mais complicado, apesar de o nível das águas não estar alto. A travessia seria feita com a água até os joelhos.

Importante retirar os calçados para não ficarem encharcados e atrapalharem a continuação do trekking. Neste ponto, os guias costumam recomendar o uso de meias para passar pelo rio. Alguns fazem totalmente descalços mesmo. Achei melhor optar pelas meias, que aumentavam a aderência com as pedras e o fundo do rio. A maior dificuldade aqui é manter o equilíbrio. As pedras escorregam, o rio tenta te passar uma rasteira e o peso da mochila te joga de um lado para o outro.

Nesse processo de uns 10-15 minutos até a outra margem, pisei em falso, me desequilibrei e meus óculos escuros foram involuntariamente oferecidos em sacrifício à natureza. Antes que eu pudesse tentar esboçar uma reação, a corrente carregou eles para algum lugar distante da selva venezuelana. Em passeios como este, é preciso saber lidar com as perdas.

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Do alto do morro se avista um bom pedaço do rio Kukenan, mas não dá pra ter uma noção exata da intensidade da correnteza.

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Com meias secas e olhos desprotegidos do sol, segui pelo caminho, que começava a apresentar mais subidas do que no primeiro dia. E à medida que essas subidas pareciam mais constantes, aumentava o meu ódio pela minha mochila. Se alguém precisa aqui de uma dica fundamental para fazer esse passeio é: leve o mínimo de coisas possíveis. Roupas limpas são o de menos. Doze quilos de bagagem não ajudam em nada. Juro que pensei em jogar várias coisas fora durante o caminho, tamanha era a irritação com o peso. Pelo menos, do tempo não podia reclamar. Estava nublado, sem fazer frio, tampouco um calor insuportável. Não ajudava assim tanto para as fotos, mas amenizava o cansaço.

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Apesar dos dificultadores, chegamos às 11:50 no acampamento Base, o que totalizava três horas e meia de caminhada. Mais uma vez, abaixo do previsto. O que poderia ser um motivo de orgulho, se transformou em estresse. O restante do nosso grupo, os 12 venezuelanos, chegaram quase duas horas depois de nós. E o guia, que nos negligenciava e ficava acompanhando eles, também só chegou com os carregadores nesse horário. O problema é que ficamos com fome durante um bom tempo, esperando que eles chegassem e o almoço fosse preparado. Apenas sobrevivendo com barras de cereal e biscoitos cedidos por amigos que fizemos em um outro grupo, de uma outra agência.

IMG_6178Nesse meio tempo, descemos até o rio mais perto para tomar banho e encher os recipientes de água. Foi o banho mais gelado de todos os seis dias de trekking, de congelar os ossos. E vale aqui a recomendação na hora de beber a água dos rios. O ideal é levar pastilhas purificadoras de água, como Clorin, por exemplo. Apesar de estarmos em um ambiente natural, o ser humano não tem tido o cuidado devido com ele. A preservação está longe de ser a ideal. Por isso, é sempre melhor não correr riscos. Eu, na correria, não consegui comprar as pastilhas e torci para não ter nenhum problema. Nesses casos, o mais prudente é procurar os focos de água que estão mais distantes do acampamento e em lugares mais elevados. Além do rio mais abaixo onde nos banhamos, há um outro bem menor que passa praticamente no meio do acampamento. Na parte mais aberta, as pessoas costumam lavar roupas e louça. Por isso eu sempre caminhava até uma parte mais alta do rio para evitar qualquer contaminação com sabão e sujeira.

 O segundo dia de trekking oferece mais tempo livre para descansar e ficar de bobeira. Como normalmente se chega no início da tarde, há um tempo razoável antes de escurecer. Eu aproveitei para dar umas caminhadas pelos arredores e tirar algumas fotos. O Monte Roraima já estava ali, bem próximo de nós, e causava um misto de admiração e preocupação.

Os guias tentavam indicar o caminho que faríamos no dia seguinte até o topo. Mas daquela distância parecia impossível que realmente tivesse alguma trilha no meio das pedras e mato. Fiquei um pouco preocupado se conseguiria subir tudo aquilo com o peso da mochila. E perguntado ao guia, vi que poderia deixar algumas coisas naquele acampamento e pegar quando voltasse do topo. O que acabou sendo uma ótima ideia.

O anoitecer foi lindo. Enquanto o sol adormecia no horizonte, na altura do Monte Kukenan, no lado oposto a lua surgia por cima do paredão do Monte Roraima. Com ela um céu sem nuvens e completamente estrelado. O sono veio acompanhado de uma alegria muito grande por estar vivendo aquela experiência.

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Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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