[dropcap style=”style3″]D[/dropcap]epois de mais uma noite tranquila de sono, despertei às 6:00. Enquanto tomava o café da manhã, olhava bem concentrado para o paredão do Monte Roraima. A luz do amanhecer criava uma visão muito linda, principalmente em um dos pontos onde as rochas formavam supostamente uma bandeira do Brasil (invenção de algum brasileiro que passou por ali e conseguiu convencer os guias venezuelanos disso).

Depois de arrumar a mochila e deixar no acampamento base tudo aquilo que eu julgava desnecessário para as duas noites no topo do monte, comecei a fase de alongamentos. A subida realmente me preocupava. Decidi que faria o trajeto com muita calma, mesmo que levasse mais tempo do que a duração média do percurso. Seriam entre 3 e 4 km de caminhada totalmente inclinada. Só subida e nada mais.

Algumas fontes de água pelo caminho para reabastecer e dar forças, mas as panturrilhas iriam sofrer de qualquer jeito. Segundo o nosso guia Hélio, seriam aproximadamente 4 horas de subida, tempo semelhante ao dos dois primeiros dias. Na noite anterior, a mexicana, o espanhol e eu tivemos uma conversa mais séria com o guia. Realmente estava complicado ele e os carregadores ficarem acompanhando mais o ritmo dos 12 venezuelanos e ninguém ficar do nosso lado.

Ele concordou em mandar um carregador mais rápido a nossa frente, para que quando chegássemos no topo as barracas fossem montadas e pudéssemos comer e descansar sem ter de esperar horas pelos demais. Reforço a recomendação: evitem fazer o trekking com grupos acima de 6 pessoas.

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Começamos a caminhar às 08:15 da manhã. Já nos primeiros trechos, umas subidas íngremes em que o uso das mãos também ajudava no apoio e a superar os obstáculos. A medida que caminhávamos, a mata ia ficando mais fechada. Uma menina francesa de um grupo que ia a frente do nosso tirou foto de uma cobra próxima a trilha. Apenas um detalhe para ficar atento, mas não chega a ser um motivo de preocupação e medo. É muito raro acontecer qualquer ataque ou encontro com animais peçonhentos. Eu não vi nada que assustasse pelo caminho.

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Havia muitas nuvens no céu e dava pra perceber que no topo o tempo estava fechado. O mais gostoso do passeio era saber que estávamos tão próximos do monte. Em alguns trecho era possível se aproximar e tocar o paredão gelado. Para quem idealizou tanto essa viagem e a colocou como um desafio pessoal, era uma sensação emocionante.

IMG_6306Calculo que entre duas ou duas horas e meia de caminhada nos deparamos com “La Rampa”. A parte mais íngreme e emocionante deste terceiro dia de trekking. Uma subida formada praticamente só por pedras pequenas e médias. Alguma fixas, outras soltas. E para tornar a coisa mais emocionante, o caminho todo escorregadio, principalmente por conta do Passo das Lágrimas. Esse trecho da “Rampa” é assim chamado por conta da cachoeira que fica logo acima. Ela pode estar bem forte ou mais fraquinha de acordo com a temporada. No nosso caso, estava relativamente fraca, mas era o suficiente para molhar todo o caminho e inclusive nos molhar.

Por isso é essencial levar uma capa de chuva decente (não levem uma vagabunda de loja de R$ 1,99 como eu fiz) e um casaco/jaqueta impermeável. Capa para a mochila e botas/tênis impermeáveis são outros itens obrigatórios. Lá no topo, você pode encontrar um tempo fechado e até chuvoso, e não vai poder contar com a sorte para secar roupas, calçados e mochilas.

O Passo das Lágrimas proporciona a sensação de finalmente estar muito perto do topo (é a principal barreira antes de chegar lá), mas também uma apreensão por conta dos obstáculos. Em alguns trechos, tive que andar bem inclinado, usando também as mãos para segurar nas pedras, pegar impulso e não escorregar. É bem divertido, na verdade, mas é preciso ficar atento para não cair e se machucar. Do lado esquerdo de quem sobe há um precipício. Então, melhor nem chegar perto.

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Vencido este desafio, faltavam ainda alguns  metros de subida. Em condições boas de visibilidade, você sabe que está muito perto do objetivo final quando visualiza uma pedra em formato de sapo. E sabe que finalmente chegou depois de avistar uma pedra em formato de tartaruga. Como estava tudo nublado, não conseguíamos ver muito além de alguns metros a frente. Ficamos até um pouco perdidos sobre a trilha correta, mas nos encontramos quando avistamos a silhueta de uma pessoa do outro grupo em cima de uma pedra. Uma daquelas visões de filme, eu diria. Mais alguns passos e lá estavam todos os integrantes do grupo que havia ido na nossa frente. Eram 11:50. O topo havia sido conquistado!

Rola uma mistura de emoção com alívio. O corpo agradece por finalmente parar e descansar. Ao mesmo tempo, aquela missão inicial, que oferece um pouco de medo e incerteza sobre sua capacidade física, é vencida. E isso é sensacional. Você percebe que seus limites são maiores do que pensava, que você tem condições de encarar esse tipo de aventura e sair vitorioso. O clima de confraternização com quem já está no topo ajuda ainda mais.

Claro que você lembra que ainda precisa caminhar alguns metros no topo à procura de abrigo. A regra é simples. São 9 hotéis de pedra e ficam com os melhores aqueles que chegarem antes. Esse grupo que foi a nossa frente ficou com um mais próximo da porta de entrada no topo do monte, o hotel Uno.

Nós tivemos que caminhar mais para chegar no hotel Sucre, onde acamparíamos. Sim, esqueci de explicar que esses hotéis nada mais são do que grandes formações rochosas que oferecem uma espécie de teto gigante de pedra, que protege as barracas contra a chuva. Aposto que você ficou aí pensando que tinha cama, wi-fi e banho quente.

Gostei bastante do nosso abrigo e logo depois que nossas barracas foram montadas, almocei (dois sanduíches de legumes e queijo, além de uma maçã) e apaguei de sono. A cabeça estava latejando de dor. Creio que foi uma mistura de esforço físico e mudança brusca de temperatura. No topo, fazia frio e meu corpo estava úmido. Tomei um remédio que ajudou a melhorar a sensação.

Com mais calma depois dessa soneca, pude observar o topo do Monte Roraima e caminhar pelos arredores do nosso abrigo. O ambiente é algo surreal. Parece que você está em outro planeta, com pedras escuras, nevoeiro e plantas exóticas. É realmente um universo perdido no tempo, que se destaca muito de qualquer outro que já tinha visto. As formas e cores são muito distintas. Mais eu teria uma noção maior desse espaço apenas no dia seguinte, quando teríamos o dia inteiro para explorar o topo do gigante.

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Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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