[dropcap style=”style3″]A[/dropcap]maior parte dos passeios para o Monte Roraima prevê que, no quarto dia de trekking, seja feita uma caminhada de ida e volta até o Ponto Tríplice. Nosso guia, o Hélio, tentou por dois dias nos convencer de que não seria uma boa ideia. Que na verdade seria uma perda de tempo caminhar pelo menos três horas para conhecer um pedaço de pedra que separa as fronteiras da Venezuela, Guiana e Brasil. E mais três horas pra voltar. Disse que o passeio era mais procurado por brasileiros seduzidos pela ideia de pisar no seu lado do monte.

Em um primeiro momento relutei, achei que ele estava apenas querendo se poupar de ter que andar muito e que queria era molezinha. Ouvindo relatos de outros grupos que fizeram o Ponto Tríplice, confesso que não achei assim tão interessante e que neste ponto a ideia do nosso guia talvez tenha sido melhor mesmo. Conseguimos aproveitar outros passeios como os Jacuzzis, a Cueva de los Guácharos e El Carro Maverick. Já explico do que se tratam.

O que não foi nada positivo por parte do nosso guia foi mais uma vez se deixar levar pela lerdeza do grupo de 12 venezuelanos que fazia o trekking conosco. O primeiro objetivo do dia era ir até La Ventana, lugar que oferece uma das melhores vistas do topo do Monte Roraima. Mas o ideal, principalmente em dias de tempo instável, é chegar bem cedo por lá, porque o risco de ter muitas nuvens diminui.

Como saímos perto das 9:00 do nosso acampamento e tivemos que caminhar ainda um bom pedaço, nos deparamos com a região da Ventana totalmente coberta por nuvens e com uma chuva fina. La Ventana recebe esse nome por conta de uma fenda entre pedras, que tem formato quadrangular parecido com uma janela e aponta para um abismo. Essa janela em si é o de menos, a região ao redor que é interessante pelos mirantes. Coisa que acabamos não curtindo da melhor forma, pois não havia praticamente nada para ser visto com toda aquele nevoeiro.

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Esperamos por quase uma hora no local, mas o tempo não dava nenhum sinal de que iria abrir. A solução, então, foi seguir andando e explorando outras áreas do topo. Observamos vegetações e formações rochosas bem exóticas. Destaque para as plantinhas carnívoras e uma outra espécie comestível para os humanos. Uma boa opção se alguém se perder sem comida por essas bandas. Também passamos por lugares onde haviam centenas de cristais no chão. A recomendação ao viajante é que nunca tente pegar um deles e levar para casa. Primeiro porque é uma interferência desnecessária no ecossistema só pelo prazer bobo de colocar uma pedra branca na estante. Segundo, porque sua mochila será revistada em Paraitepui no retorno do Monte Roraima. Por que correr esse risco de passar vergonha por tão pouco?

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Durante o trajeto nos deparamos diversas vezes com o habitante mais famoso do monte: a rã minúscula. Do tamanho de uma unha, preta como as pedras que compõem a paisagem do Roraima e com o ventre alaranjado, ela é sempre muito popular. Não há quem passe por aqui sem ficar curioso em observá-la de perto e tirar uma foto, já que é uma espécie endêmica, só existe nos tepuys da Gran Sabana. De nome científico Oreophrynella quelchii, a rãzinha não consegue saltar, mas se move rapidamente entre as pedras. Como é escura, tem a vantagem da camuflagem sobre outros predadores. Quando acuada, gosta literalmente de se fingir de morta.

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E já que falei sobre preservação do ambiente, vamos falar sobre um assunto fedorento. Durante o trekking mínimo de 6 dias, o normal é sentir vontade de ir ao banheiro, seja para o número um, seja para o número dois. Onde e como fazer da maneira correta? Agências mais “sofisticadas” improvisam uma espécie de barraca-banheiro. Nosso caso era mais rústico mesmo: em uma sacola plástica. O guia nos indicava os pontos estratégicos em cada acampamento onde eram concentradas as sacolas com os dejetos.

A principal preocupação é fazer as necessidades longe dos rios, para evitar que a água seja contaminada. Quanto ao destino dos dejetos, o guia nos disse que era recolhido pelos carregadores do nosso grupo e jogado corretamente fora ao fim do trekking. Não pude comprovar a veracidade dessa afirmação, mas dei um voto de confiança a ele porque, apesar de vários outros defeitos já citados, demonstrava uma preocupação bem grande com o meio ambiente.

IMG_6596Assunto porco e necessário falado, vamos a uma outra dica importante quando estiver no topo: protetor solar e labial. Usei os dois durante todo o trekking, mas justamente nesse dia achei que não era necessário. Estava nublado e chovia quase sempre, para quê usá-los? Esse raciocínio não se mostrou tão inteligente assim depois, quando terminei o dia torrado. O lugar é alto, a incidência dos raios solares idem, com sol ou chuva, proteja-se.

Seguimos nossa missão de exploração. A próxima parada era mais tranquila. Um momento de relaxamento em Los Jacuzzis. Piscinas naturais improvisadas em pleno Roraima. Não é para esperar por águas termais ou aquecidas. Tivemos de relaxar mesmo naquela água fria de doer os ossos. Nada que em alguns minutos o corpo não acostume. A água tem uma coloração mais avermelhada por conta do tipo de pedra que a rodeia. Foi uma espécie de banho coletivo no local, com alguns doidos improvisando saltos mesmo com a pouca profundidade das águas.

Depois do banho, parada no acampamento para almoço e sono de uma hora. Ao acordar, nova caminhada para a Cueva de los Guácharos. Descemos alguns metros dentro de uma grande caverna. Por conta do escuro total, lanternas eram indispensáveis na exploração do local. Mas eu fiz o favor de esquecer e usei a de um dos colegas.

Achei até bem divertido o passeio. Descidas, saltos em pedras, agachamentos para passar por partes mais baixas, teve de tudo. Chão arenoso e pedras úmidas. Um teto também arenoso, que – quando estava em altura de ser tocado – esfarelava. Em um determinado ponto encontramos uma espécie de lago subterrâneo e paramos para observação. Disse o nosso guia que dali em diante não era possível mais seguir caminhando. Que apenas alguns loucos já tinham tentado avançar nadando com equipamento de mergulho.

O guia pediu que todos apagassem as luzes, ficassem em silêncio e cumpriu aquele ritual protocolar de contar lendas indígenas para o surgimento do Monte Roraima. A principal delas, contada pelos índios pemon, diz que o monte era na verdade uma grande árvore, carregada de grandes e deliciosas frutas. Se destacava tanto na selva que os índios resolveram cortá-la e tirar todos os frutos. Mas ao fazer isso, uma fonte gigantesca de água brotou do tronco e causou uma grande inundação. A parte do tronco despencou em uma parte da selva, perdendo-se ali para sempre. Seria esse o Monte Roraima.

Saindo da caverna, a última parada no topo foi no Maverick, uma formação rochosa bem parecida com os hotéis de pedra onde dormimos. Dizem que tem o formato de um carro Maverick, por isso o nome. É considerado o ponto mais alto do monte, a 2.723 metros de altura. Há uma trilha razoavelmente tranquila que leva ao cume. De lá, também se tem uma vista privilegiada do topo do Roraima e da paisagem ao redor dele. Mas com a chuva e o nevoeiro, nos contentamos apenas em meditar e delirar com a vista meio fantasmagórica-surrealista provocada pelo ambiente. Era hora de concentrar forças para o dia seguinte, o de descida do monte e retorno até o acampamento do rio Tek. A caminhada mais longa desses 6 dias de trekking.

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Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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