[dropcap style=”style3″]N[/dropcap]ão sei é algum resquício de infância ou influência de filmes e livros. Mas desde que comecei a viajar com mais frequência e investir um pouco mais de dinheiro nessas “fugas”, tenho o costume de inventar “missões específicas”, de querer dar um sentido específico para cada passeio. Por exemplo, o meu primeiro mochilão foi aqui dentro do Brasil, na Bahia.

Achei interessante começar a viagem em Porto Seguro, terra onde teoricamente o país foi descoberto pelos europeus. Critique ou não a forma como esse episódio aconteceu e todas as consequências, o fato é que a cidade é simbólica como ponto de partida para a formação do Brasil atual. Isso criava um significado para a minha viagem, a descoberta também da minha independência como mochileiro.

O plano seguinte era descobrir a América do Sul. Fui questionado e pentelhado por amigos e familiares: “Se você juntou um dinheiro, porque não viajar para a Europa?”. “Que graça tem viajar para esses países pobres aqui perto?”. Tem muita graça, isso sim. São vulcões, geleiras, desertos, montanhas, lagos, praias paradisíacas, florestas. Por que não viajar?

A América do Sul sempre despertou a minha curiosidade e admiração. Países tão próximos do Brasil, tão semelhantes e ao mesmo tempo tão distintos. Natureza linda, povo peculiar, elementos culturais interessantíssimos. Música boa, comida boa, literatura de alta qualidade. E tudo isso mesmo com uma história sofrida de exploração e pobreza.

Viajei para outros lugares na Europa e quero conhecer ainda muitos outros continentes. Mas a América do Sul tem uma importância especial na minha vida. Sinto sempre uma conexão muito íntima com as pessoas e a cultura. Sempre me sinto bem à vontade na nossa região, uma sensação de familiaridade e apego. Gosto de pensar que minha identidade vai além do “ser brasileiro”.

É uma identidade latina, sul-americana. Minhas leituras e estudos também costumam estar mais ligados com o continente. Meu trabalho de pós-graduação em História Contemporânea, por exemplo, abordou um episódio específico da ditadura militar argentina e chilena.

E no meio destes simbolismos que citei, o ano de 2014 para mim já tem um significado especial. Consegui cumprir uma missão pessoal que tinha traçado lá atrás: ter um carimbo no passaporte dos principais países da América do Sul, ter pisado em pelo menos uma cidade de cada um deles.

A verdade é que não me interessam muito a Guiana, Guiana Francesa e Suriname. Parecem muito distintos da realidade do continente, principalmente em questões de idioma e política. Então, depois de passar por Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador, a minha missão foi enfim cumprida em abril deste ano quando atravessei a fronteira de Roraima para a Venezuela.

Bobeira? É como eu disse. Em um mundo onde muita coisa não faz o menor sentido, gosto de inventar meus próprios significados e objetivos. Um deles, talvez simples, mas importante pra mim era esse de conhecer bem os nossos vizinhos. E as experiências foram incríveis.

Apesar de ter conhecido muitas cidades no continente, ainda há algumas na lista de pendências. São desculpas estrategicamente preparadas para que eu seja obrigado a viajar de novo pela América. Mas que venham agora também novas aventuras e “missões”. A brincadeira só começou.


Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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