Você observa a foto acima e surgem algumas dúvidas sobre o comportamento do sujeito sentado. No caso, eu. Por que as mãos na cabeça? Dor? Desespero por ainda faltar muito para o fim do trekking? Estado de choque com a paisagem? Na verdade, tratava-se do primeiro encontro com o famoso “vento patagônico”. As mãos impediam que a touca saísse da cabeça e voasse para muito longe.

Era novembro de 2011 em Torres del Paine, no Chile. Durante alguns dias, ouvi de muitos viajantes sobre o tal vento e muitos adjetivos sobre a força e o poder congelante dele. Fantasias e exageros à parte, foi de fato uma experiência completamente diferente. O frio me fazia tremer, mesmo bem agasalhado.

O uivo grave e a potência da corrente de ar causavam desequilíbrio, tornavam meus passos cambaleantes. O precipício à frente provocava respeito. A cadeia de montanhas nevadas, encantamento. Era a natureza mostrando o quanto eu era pequeno em relação a ela.

O curioso nesse sentimento de fraqueza e insignificância é que ele não era ruim. Ao invés de desespero, o cenário produzia paz e conforto. Nunca soube expressar muito bem aquele sentimento até ler A arte de viajar, de Alain de Botton. No livro, que eu recomendo e usarei como apoio em outros textos do blog, o filósofo suíço explica o conceito de natureza “sublime”: paisagens grandiosas e inspiradoras, que às vezes provocam assombro e até adoração.

As paisagens sublimes repetem, em termos solenes, uma lição que a vida cotidiana nos ensina cruelmente: o Universo é mais poderoso do que nós; somos frágeis e transitórios; não temos alternativa senão aceitar limitações à nossa vontade e precisamos nos dobrar a necessidades maiores do que nós mesmos.

Viajar é muito mais do que postar fotos no Facebook e adquirir um status diante dos colegas. É uma oportunidade de reflexão, de autoconhecimento, de redescoberta pessoal. Sair da rotina e da zona de conforto, conversar com pessoas de culturas diferentes e admirar paisagens novas mexem com a nossa cabeça. Algumas viagens me ajudaram a tomar decisões importantes, a rever conceitos básicos de vida.

E o contato com a natureza “sublime” das geleiras, montanhas, vulcões, oceanos e outros gigantes me ajudaram a suportar momentos de angústia, incerteza e revolta com o mundo. Estar em contato com algo maior, sobre o qual não tenho poder, diminui o tamanho dos meus problemas. Consigo perceber que certas coisas dependem de uma atitude minha, outras apenas de uma aceitação.

Não somos capazes de controlar sentimentos e pensamentos das pessoas a nosso respeito, de estar o tempo todo felizes com o trabalho, de encontrar um parceiro (a) perfeito, de superar fenômenos climáticos, de vencer algumas doenças e a morte. O contato com o sublime ensina que o que não controlamos, não pode nos desesperar: respeitamos e aceitamos. Fazemos o melhor, sem esperar que tudo sairá 100% como queremos.

Se o mundo é injusto ou está além de nosso entendimento, os lugares sublimes sugerem que não se surpreende que as coisas sejam assim. Somos joguetes das forças que criaram os oceanos e moldaram as montanhas. Lugares sublimes nos levam gentilmente a reconhecer as limitações que, de outra forma, poderiam nos causar ansiedade ou raiva no curso comum dos acontecimentos.

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Por essas razões, tenho sempre uma preferência por passeios que envolvam natureza. Não desprezo o valor que lugares urbanos têm, mas conhecer paisagens naturais grandiosas dão mais significado às minhas viagens. Como desprezar os efeitos provocados por Machu Picchu, Glaciar Perito Moreno, Vulcão Villarrica (foto acima), Monte Roraima, Salto Angel, Salar de Uyuni, Deserto do Atacama, Cataratas do Iguaçu? Isso só pra citar alguns atrativos aqui da América do Sul, mas acessíveis para nós.

Precisando refletir sobre algo importante, lidar com momentos difíceis? Como escritor de blog de viagens, a minha recomendação não poderia ser outra: viaje para destinos com a tal natureza sublime. Ou procure um lugar próximo do seu bairro ou cidade com uma paisagem sem grandes interferências humanas. Passe um tempo simplesmente contemplando, deixando a mente vagar livremente, afastando preocupações, procurando novos significados. Perceba que você é parte de algo muito maior e, muitas vezes, humanamente inexplicável.


Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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