Cuba voltou a figurar nas manchetes de muitos noticiários neste fim de ano. Não foi por menos. As relações diplomáticas com os Estados Unidos foram retomadas depois de mais de cinquenta anos. O embargo econômico ainda está em vigor e ainda não é possível prever que impacto essa ação política terá no turismo local. Mas já tem muita gente por aí pregando que é melhor conhecer o país comandado por Raúl Castro antes que ele se modernize e perca aquela atmosfera dos anos 50, que parece ter congelado Cuba no tempo.

A verdade é que ninguém precisa dessa desculpa para se aventurar por lá. Há muitos atrativos que tornam o país interessante. Um deles, talvez o principal, é o povo e sua cultura peculiar. Os cubanos são mundialmente conhecidos pelo jeito caloroso e alegre, manifestado na dança, na arte, na música e até nas simples relações do dia a dia. Mas existe um tipo cubano, com características muito próximas dos “malandros brasileiros”, que é preciso ter cuidado. Os jineteros.

Figuras comuns em todo o país, são homens e mulheres que tentam ganhar dinheiro dos turistas de um jeitinho ilegal, por meio de alguma trapaça. Pode ser com a venda de produtos duvidosos, indicando restaurantes ou hospedagens em que ganham comissões, oferecendo companhia e ajuda para que você encontre um ponto turístico e, em alguns casos, oferecendo serviços de prostituição. Tudo pode ser oferecido pelos jineteros e é preciso um pouquinho de atenção para não cair em um golpe.

Como carioca, sei que existe uma cultura da malandragem aqui no Rio. E vai ter muito marrento dizendo que, se sobrevive às falcatruas da Cidade Maravilhosa, vai tirar Cuba de letra. Tipo eu, sabe? Mas acredite: os jineteros estão em pé de igualdade no quesito lábia e oferecem um arsenal de trapaças diferentes.

Quase caí em uma dessas roubadas clássicas em Havana, em agosto de 2013. Depois de passear pelos arredores do Capitólio, na área central da cidade, parei em uma praça para sentar em um banco, descansar e tomar um pouco de água. Fazia aquele típico calor caribenho infernal. Um sujeito de aproximadamente 25 anos sentou ao meu lado e puxou assunto. O papo manjado de sempre: “nossa, você é do Brasil?”, “eu amo o Brasil”, “tenho um parente que vive lá”, “legal encontrar um brasileiro viajando por aqui”, etc.

Depois da forçada amizade, veio o discurso choroso: “aqui a vida é tão difícil”, “a gente ama Cuba, mas tem alguns problemas”. Em seguida, a proposta irrecusável: “gostei de você, posso te levar em um lugar que vende charutos muito mais baratos do que nas lojas para turistas”. Pronto. Era a senha para a roubada.

catbotasEsse é um golpe frequente em Cuba. Alguém te aborda e diz que os trabalhadores das indústrias de charuto têm uma cooperativa. Eles têm direito a ficar com alguns charutos, seja porque estão com algum problema de fabricação, ou porque o governo doa uma certa quantidade para cada trabalhador.

O malandrão te convida para conhecer uma dessas cooperativas, onde os preços dos charutos são bem mais baratos do que o normal. Como não ajudar aquele sujeito com olhos suplicantes como os do “gato de botas”? Pois é, tanto a historinha quanto os produtos são falsos.

Cheguei a ir de curioso a essa falsa cooperativa. Maior cilada. O meu “grande amigo” cubano me fez entrar em um sobrado bem pobre, localizado em um beco suspeito. No segundo andar, uma dupla me mostrou uma variedade de caixas e charutos. Para se ter uma ideia, uma caixa de Cohibas com 25 charutos, que pode ser vendido no Brasil por até R$ 2500, estava custando 100 euros (cerca de R$ 300). Uma diferença muito grande para ser verdade. Mas muita gente é seduzida pela proposta.

É importante lembrar que Cuba é um país muito seguro. Há poucos registros de violência. O fato de o país ter um governo autoritário, com regras muito rígidas, contribui para isso. Logo, o máximo de problemas que os jineteros costumam causar é o de serem chatos pra caramba. Claro que eu desaconselharia acompanhá-los a lugares suspeitos como eu irresponsavelmente fiz. Todo cuidado é pouco em qualquer lugar do mundo. Mas os jineteros não devem ser uma desculpa para evitar uma visita ao país, tampouco um motivo para passear com medo por lá.

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Como lidar com eles? Use a malandragem brasileira a seu favor. Foi abordado por um jinetero? Basta um “no, gracias” e seguir caminhando para fugir dele. Uns podem ser mais insistentes, aí é preciso ser mais incisivo e sair de perto. No começo da minha viagem, confesso ter ficado bem irritado com as constantes abordagens.

Quando não eram jineteros, eram pessoas perguntando se eu tinha alguma camisa pra dar de presente. Depois, repensei a minha postura. A maioria opta por esse tipo de “trabalho” por conta da situação social em que se encontra. Culpe você o embargo econômico dos EUA ou a má gestão política dos irmãos Castro e o Comunismo, ainda há uma dificuldade de acesso a determinados produtos no país. Alguns conseguem um padrão de vida melhor por meios oficiais, outros optam ou se veem obrigados a seguir por vias clandestinas. Melhor do que só criticar, é entender e evitar estresses.

Eu estava viajando sozinho, em alguns momentos não tinha com quem conversar. Ao mesmo tempo, queria treinar meu espanhol, aprender novas palavras. Ah, e tinha o lado jornalista/fofoqueiro. Descobri que em vez de me irritar, poderia me beneficiar da situação. Passei a torcer para um jinetero sentar do meu lado e puxar conversa.

Era simpático, ouvia e falava com tranquilidade, aproveitava para perguntar como eles viam o regime, fazia uma espécie de pesquisa antropológica e, no fim da conversa, sorria educadamente e dizia que não podia ajudá-lo, pois estava com pouco dinheiro. “Soy latino, mi amigo”, “quem tem dinheiro é europeu”, “fica para a próxima”. E, às vezes, pode acontecer de alguém te abordar só porque quer conversar mesmo. Afinal, os jineteros são apenas um dos grupos que circulam pelo país. Muito cubanos não optam por esses meios ilegais de faturamento.

Em duas ocasiões, puxaram assunto comigo por causa de uma camisa de time que eu estava usando, caminharam ao meu lado até certo ponto e eu fiquei na expectativa de que pediriam dinheiro. Mas a pessoa simplesmente se despediu e seguiu a vida. Deixei o país com muitas histórias de vida interessantes e opiniões diferentes sobre o regime político. E um vocabulário mais rico.


Rafael Cardoso

Carioca da Ilha do Governador, Rafael é formado em Jornalismo. Defende a filosofia mochileira de viagens econômicas, independentes, que respeitam a natureza e as culturas de cada lugar. Adora contar e ouvir histórias desde pequeno. Descobriu que escrever sobre turismo e viagens é uma ótima terapia de vida.

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