Abri os olhos repentinamente.

A primeira imagem ao acordar foi a do teto. Mas não faria a menor diferença se outra parte do quarto estivesse à vista. Não dava pra distinguir nada no escuro. E, naquele momento, o primeiro sentido a tomar consciência do ambiente foi a audição.

Um barulho alto, em ritmo marcado e insistente, tinha me acordado. Demoraram alguns segundos até o cérebro entender que era um sinal de alerta. Um alarme!

Onde eu tava mesmo?

Ah, sim! Em um quarto de hotel em Cusco. Tava no meio de uma viagem de férias. Aquele roteiro clássico: 30 dias pelo Peru, Bolívia e Chile.

E essa pessoa do meu lado na cama? Bem, era uma amiga. Mas não convém discutir o grau de amizade agora. Deixe de ser curioso. O importante era que aquele alarme representava perigo.

O instinto carioca logo escolheu uma hipótese: era assalto no hotel. Certeza!

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Não sei se era efeito do susto, se ainda estava sonhando, mas juro que vi a maçaneta girando. Alguém tentando entrar no quarto?

A amiga ao lado também tinha acordado.

– Fulana! Tá ouvindo o alarme? Acho que é assalto.
– Tô ouvindo! Será que o hotel foi invadido?

Lancei uma expressão enigmática. Na dúvida, melhor ficar quieto aqui dentro, ponderei. Afinal, o quarto está trancado. Ninguém vai conseguir entrar.

À essa altura, já havia me acostumado com a luz baixa. Dava pra perceber os olhos assustados da amiga. Ela tinha pensado em outra alternativa.

– E se for incêndio?

fogo

Ixi! Aí, piorou. Ficar parado ou correr? Se existia a chance de o hotel estar em chamas, não dava pra gente ficar ali preso e virar churrasco. E se a gente abrisse a porta e desse de cara com uma quadrilha armada peruana? Alguém precisava ver o que estava acontecendo do lado de fora.

Tomado pelo espírito de macho alfa das cavernas, decidi que eu deveria desbravar o corredor. Tirei os pés da cama, inflei o peito e procurei algo no quarto que pudesse ser usado como arma contra um suposto bandido.

Olhei em volta, sem muita esperança. Malas em um dos cantos. Perto da janela, um varal porcamente improvisado, com meias e roupas de baixo penduradas. Tênis sujos de terra andina no chão. Nada servia.

Tinha que pensar rápido. Um mini ferro de passar surgiu no horizonte e pareceu a arma mais letal naquele momento. Não me veio à cabeça como aquilo poderia machucar o criminoso.

Bem devagar, caminhei para a porta. A amiga vinha atrás, segurando no meu ombro. Poucos passos nos separavam do desconhecido.

Respirei fundo.

Primeiro, girei a chave. Depois, a maçaneta. E, num impulso, projetei o corpo para fora do quarto. Estendi a mão direita para a frente, segurando o ferro de passar. Olhei rápido para o corredor escuro. Nenhum sinal de perigo. Nenhum vulto. Nenhum fogo. Nenhum barulho. O alarme não estava tocando mais.

Respiração voltando ao normal.

Já recomposto do susto, percebi uma movimentação no quarto da frente, a uma distância de pouco mais de um metro da gente. Um casal jovem de traços orientais estava parado na porta. Os quatros olhos esbugalhados, tipo mangá, investigavam o corredor.

perigo

Na mão direita do homem, um guarda-chuva preto fazia as vezes de um fuzil.

Os olhos dele saíram do corredor e pousaram no ferro de passar que eu carregava. Em seguida, encontraram os meus olhos. Sorrimos constrangidos. Na hora do cagaço, Brasil e Japão não eram assim tão diferentes.

Um rápido aceno de mão (a esquerda), cumprimento de armas (ferro e guarda-chuva), viramos as costas e fechamos as portas. Solidariedade. Éramos igualmente patéticos.

E o motivo do alarme? E os passos rápidos no corredor? E a maçaneta que eu vi girando?

Nenhum funcionário do hotel soube ou quis explicar.

Até hoje continua o mistério…

cronica hotel cusco peru