Desde que sou um projeto de gente, ouço histórias da Paraíba.

A vó veio de lá para o Rio depois que casou.

Aqui, criou a família. Mas nunca esqueceu da terrinha. Era sempre uma lembrança gostosa. E também engraçada. O que fez crescer a cada ano a minha vontade de conhecer as origens nordestinas.

O dia tinha chegado.

Tinha juntado dinheiro e me demitido do trabalho. Um ano sabático. Não tinha mais desculpa. Vamos para a Paraíba!

Promoção da GOL veio na hora certa. Passagens compradas pra mim e pra minha vó. Há 15 anos, ela não visitava a terra natal. Estava muito feliz de ajudá-la a voltar lá. Também ansioso pra conhecer a família paraibana e ver os lugares que tanto tinha ouvido falar nas histórias de infância.

A vó já tinha mais de 80 anos e nunca tinha viajado de avião. Fiquei com medo de ela ficar nervosa no voo, passar mal.

Bobão esse garoto. Na hora do embarque, a véinha tava curtindo e muito. Sentou na janelinha e arregalou os olhos de emoção quando o avião decolou.

voo tranquilo

Era o olhar admirado de uma criança que observava as nuvens lá fora.

– Que bunito, Rafael! Fica tudo pequenininho lá embaixo.

Sabe aquela sensação de orgulho de ter feito a coisa certa? De ter sido um dos melhores investimentos da vida? Eu só pensava nisso.

A vó pediu licença para ir ao banheiro. “Velho tem que mijar toda hora”, ela tentou explicar. Sorri. “Claro, vó. Vai lá. Super normal”. Ela me perguntou onde ficava o banheiro e eu indiquei com a mão.

Não tinha erro.

Não tinha?

Pleno e satisfeito comigo mesmo, peguei no sono por alguns segundos.

Toda aquela paz de espírito quase budista foi perturbada quando alguém resolveu sacudir a minha poltrona. Resmunguei, tentando voltar ao sono. Como tem gente mal educada, que não respeita o espaço do outro.

Mais alguns segundos. Agora, uma mão desconhecida sacudia o meu ombro. Vinha do assento atrás do meu.

– Saco! Que foi? – perguntei rispidamente.

Uma mulher, com expressão preocupada, tentava chamar a minha atenção. Queria alertar para algum tipo de perigo.

– A sua vó! Ajuda ela lá!

Voltei a cabeça para o corredor e não a vi. Tudo parecia em ordem.

– Ela tá tentando abrir a porta errada – insistiu, agora com mais vigor, a inconveniente.

Mas, hein? Como assim?

Estiquei mais o corpo pra fora da poltrona. E aí, consegui ver melhor.

A cena realmente não era das mais tranquilizadoras.

A vó tinha confundido o caminho do banheiro. Estava parada em frente à saída principal e tentava abrir a porta do avião!

Sabe quando você gela de medo?

susto no voo

Tava lá a mãozinha dela mexendo impunemente na trava da porta. Nenhuma comissária por perto. Só ela. Impaciente.

Corri na direção dela.

– Vó, que pressa é essa? Falta só uma hora. Quer chegar antes na Paraíba?

Era a típica piadinha nervosa depois que o susto passa.

Expliquei o caminho certo do banheiro e, dessa vez, acompanhei atentamente os passos dela. Até voltar segura para o assento.

Já dava pra respirar. E rir. A viagem mal tinha começado e trazia fortes emoções.

Constrangida, a vó me implorou pra não contar a história pra ninguém. Mas como não compartilhar isso com o mundo?

Te amo, vó!

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